Julho 2019
Movimento Católico de Evangelização para reavivar e desenvolver a vida cristã-batismal na perspectiva do seguimento de Jesus Cristo.

Filas de pessoas recebendo a comunhão, dentre elas o cantor Cosme no Kairós 2018.
“Quem Me come viverá por Mim”

A Eucaristia faz a Igreja mediante a comunhão.


Um filósofo ateu disse: “O homem é aquilo que come”. Pretendia dizer que no homem não existe diferença qualitativa entre matéria e espírito, que tudo nele se reduz à componente material.  Mais uma vez, aconteceu que um ateu deu, sem o saber, a melhor formulação aplicada a um mistério cristão. Graças à Eucaristia, o cristão é verdadeiramente aquilo que come. “A nossa participação no corpo e sangue de Cristo nada mais pretende senão tornar-nos naquilo que comemos” (São Leão Magno).

“Como o Pai, que vive, Me enviou e Eu vivo pelo Pai, assim aquele que Me come viverá por mim” (Jo 6,57). Isto significa que quem come o corpo de Cristo vive d’Ele, ou seja, em força da vida que provém d’Ele, e vive para Ele, para a sua glória, para o seu amor, para o seu Reino.  

Padres da Igreja: o princípio vital mais forte assimila o que é mais fraco. Jesus diz ao que O recebe: “Não será tu que Me assimilarás, Eu é que te assimilarei” (Sto. Agostinho).  Enquanto o alimento material se torna aquele que o come, aqui acontece o contrário: o Pão da Vida é ele mesmo vivo e por isso vivem aqueles que o recebem. É o pão da vida que faz movimentar quem dele se alimenta. “Que me come viverá por Mim”. 

Dizer que Jesus Eucarístico nos assimila a si, quer dizer, concretamente, que ele torna nossos sentimentos, desejos e pensamentos semelhantes aos seus (Fl 2,5).  Como o coração no corpo, Jesus é o coração do seu Corpo Místico. Ao coração chega de todas as partes o sangue venoso, empobrecido de elementos vitais e cheio de tóxicos. Nos pulmões este sangue é como que queimado com oxigênio e assim regenerado, enriquecido e restituído pelo coração a todos os organismos. Todo sangue venoso do mundo flui para a Missa. Na comunhão, o indivíduo lança todos os pecados e Jesus dá sangue puro, sangue novo, “medicina de imortalidade” (Sto. Inácio de Antioquia). Por isso se diz na Escritura: “O sangue de Cristo... purificará das obras da morte a nossa consciência” (Hb 9,14;); “purifica-os de todo o pecado” (1Jo 1,7).  A Eucaristia é o coração da Igreja e num sentido muito mais real do que costumamos pensar!


1. Comunhão com o corpo e o sangue de Cristo (1 Cor 10, 16)



Corpo e sangue, biblicamente falando, quer dizer toda a vida de Cristo, sua vida e sua morte. Corpo é a vida vivida no corpo. Na Eucaristia,corpo significa Cristo na sua condição de servo, pobreza, cruz; que trabalhou, sofreu, rezou no meio de nós. Sangue também é uma realidade concreta, melhor, um acontecimento concreto: indica a morte, a morte violenta, a morte sacrifical expiatória. (Ex 24,8)

Ao comungarmos, portanto, o corpo e o sangue de Cristo, revivemos e partilhamos toda a sua experiência de vida. Unimos o hoje da nossa vida, os momentos felizes ou tristes que também passamos, aos momentos que Jesus viveu. Tudo isso não por uma ficção mental, mas porque Jesus existe e está vivo na Eucaristia.


2. Quem se une ao Senhor forma um só Espírito com Ele (1Cor 6,17).



A força da comunhão eucarística reside precisamente nisto; nela nós nos tornamos um só espírito com Jesus e este único espírito é o Espírito Santo! No nascimento é o Espírito que dá Jesus ao mundo. Na morte, é Jesus quem dá ao mundo o Espírito Santo. Na consagração, o Espírito dá-nos Jesus. Na comunhão, Cristo dá-nos o Espírito.

O Espírito Santo é aquele que realiza a nossa intimidade com Deus (São Basílio). O Espírito Santo é a “nossa própria comunhão com Cristo” (Sto. Irineu). 

Na comunhão Jesus dá agora o Espírito Santo. Deste modo Jesus torna-nos participantes da sua unção espiritual. Ao redor da mesa eucarística realiza-se a “embriaguez sóbria do Espírito”. 

O efeito da embriaguez é sempre fazer o homem sair de si mesmo. Na embriaguez material (vinho, droga) o homem sai de si para abaixo da razão, para o nível animal... Na embriaguez espiritual sai para viver acima da própria razão, para o horizonte de Deus. Cada comunhão deveria terminar num êxtase (não tanto no sentido dos fenômenos místicos extraordinários, mas no sentido paulino de “já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”).

Eucaristia é o sacramento do amor (Sto. Tomás de Aquino). O amor é a única realidade, graças à qual dois seres vivos distintos podem unir-se para formar uma só coisa. O Espírito é chamado a própria comunhão com Cristo por que Ele é o próprio Amor de Deus. Eu comungo plena e definitivamente com Cristo que comungou comigo, somente quando consigo dizer-lhe, com simplicidade e sinceridade de coração, como Pedro: “Senhor, Tu sabes que eu te amo!” (Jo 21, 16).


3. “Eu neles e Tu em Mim”: a comunhão com o Pai



Mediante Jesus e o seu Espírito, na comunhão eucarística nós alcançamos também o Pai. Os Três são inseparáveis. Devido à pericorese (É o inter-relacionamento eterno que existe entre os três divinos: Pai, Filho e Espírito Santo. Cada pessoa vive da outra, com a outra, pela outra e para a outra. É uma comunidade unida, de amor, de ação) das Pessoas divinas, em cada uma estão presentes também as outras duas. A Trindade toda está na Eucaristia! 

Entramos, portanto, numa comunhão misteriosa, mas profunda, com a Trindade inteira: com o Pai, mediante Jesus Cristo, no Espírito Santo.


4. Deus colocou o seu corpo nas nossas mãos



Que fazemos nós com o Corpo de Cristo? Muitas vezes estamos até distraídos, e isto é usar de violência para com Ele.

“A Humanidade estremeça, o Universo inteiro trema e o Céu exulte quando, sobre o altar, nas mãos do sacerdote, está o Cristo Filho de Deus vivo. Vede, irmãos, a humildade de Deus e abri-lhe os vossos corações; humilhai-vos também vós, para que Ele vos exalte” (S. Francisco de Assis).

Creio que se trata de uma graça salutar para um cristão passar por um período de tempo em que tem medo de se aproximar da comunhão... A pregação da Igreja não deveria ter receio de usar por vezes a linguagem de Hb 12,18-24!!! Conhecemos o aviso que ressoava no cristianismo primitivo, no momento da comunhão: “Quem é santo aproxime-se, quem não o é arrependa-se!” (Didaqué 10).

São João Crisóstomo, tendo de lidar com uma população inclinada, também ela, a levar as coisas com leviandade, não fala nunca da comunhão eucarística, que não utilize o adjetivo ‘terrível’: “Os mistérios da Igreja são terríveis; e terrível é o altar!” (S. João Crisóstomo); “Terrível e inefável é a comunhão dos santos mistérios” (S. João Crisóstomo).


5. A comunhão com o corpo de Cristo que é a Igreja



Na Eucaristia realiza-se também uma comunhão horizontal, ou seja, com os irmãos.  1Cor 10,16-17: comunhão com corpo de Cristo, mas fala também de corpo místico, que é a Igreja.

Os primeiros cristãos sentiam-se unidos na fração do pão (At 2,42). Não se pode ter um pão se os grãos de trigo não são moídos... Para sermos o corpo místico de Cristo, também temos que ser moídos. E nada melhor para nos moer do que a caridade fraterna, especialmente pra quem vive em comunidade: suportarem-se uns aos outros apesar das diferenças de caracteres, de pontos de vista , etc. 

É nos dito na Missa: “O corpo de Cristo”. E nós dizemos: Amém! Dizemos amém ao corpo santo de Jesus nascido da Virgem, mas também ao corpo místico que é a Igreja, que são concretamente, os irmãos que estão a nossa volta, na vida ou na mesa eucarística. Não podemos separar os dois corpos, e aceitar um e rejeitar o outro.

Não nos custará muito dizer amém aos irmãos, talvez à maioria, mas sempre haverá um que nos faz sofrer, por culpa dele ou nossa. Dizer amém neste caso é mais difícil, mas esconde uma graça especial. Quando queremos fazer uma comunhão mais íntima com Jesus, ou precisamos de um perdão ou uma graça especial, este é o melhor modo de o conseguir: acolher Jesus, na comunhão, juntamente com aquele irmão. Dizer mesmo: “Jesus, hoje recebo-vos juntamente com o fulano... hospedo-o juntamente contigo no meu coração, fico feliz se Vós o trazeis convosco.” Este pequeno gesto agrada muito a Jesus, porque Ele sabe que, para o fazermos, devemos morrer um pouco.

A Eucaristia, nossa santificação. Cantalamessa, Raniero. Paulus, São Paulo, 2005, cap. III, pp.37-54 - Resumido por Pe. Marcos Oliveira 


Movimento Católico de Evangelização para reavivar e desenvolver a vida cristã-batismal na perspectiva do seguimento de Jesus Cristo.

"Isto é o meu Corpo entregue por vós"
Padre Marcos Oliveira fazendo a consagração do Corpo e Sangue de Cristo no Graça e Paz 2019.

A Eucaristia faz a Igreja mediante a consagração



No primeiro capítulo do livro “A Eucaristia, nossa santificação” Frei Raniero considerou o Santíssimo Sacramento na história da Salvação, na qual ele está presente, sucessivamente, como figura(Antigo Testamento), como acontecimento(Novo Testamento) e como sacramento(tempo este da Igreja que estamos vivendo).
Agora, mais do que dizer que a Eucaristia está no centro da Igreja, enfoca-se que a Eucaristia faz a Igreja!
Há dois sacramentos que constroem a Igreja: O Batismo e a Eucaristia.
Enquanto o Batismo constrói a Igreja em extensão, em número, a Eucaristia fá-la crescer com intensidade, qualitativamente, porque a transforma cada vez mais em profundidade à imagem da sua Cabeça, Cristo.

A Eucaristia dentro da Igreja é como o fermento na massa (Mt 13,33). De vários modos a Eucaristia faz a Igreja: mediante a consagração, comunhão, contemplação e mediante a imitação.

1. Ofereçais vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus. Este é o vosso culto autêntico(Rm 12,1).

São Paulo diz isso lembrando-se sem dúvida nenhuma daquelas palavras de Cristo na Última Ceia: “Tomai e comei: isto é o meu corpo entregue em sacrifício por vós”. São Paulo está querendo dizer: façam o mesmo que Jesus fez.

Jesus mesmo disse: “Fazei isto em memória de mim”. Jesus não dizia repetir só os seus gestos, mas fazer a substância que ele fez, oferecer também o nosso corpo como Ele ofereceu o dele.

Olhemos com olhos novos o momento da consagração eucarística, porque agora sabemos, como diz Santo Agostinho, que “é também o nosso mistério que se celebra no altar”.

2. “Tomai, todos, e comei...”

Como é que também devemos fazer “nossas” estas palavras?

Antes eu fechava os olhos, inclinava a cabeça, procurava isolar-me... Mas depois que compreendi que somos um só com Jesus Ressuscitado, já não fecho os olhos na hora da consagração. Olho para os irmãos e dirigindo-me a eles, digo como Jesus: Tomai, todos, e comei: isto é o meu corpo.

Santo Agostinho dizia também: “Toda a cidade redimida, ou seja, a assembléia comunitária dos santos é oferecida a Deus como sacrifício universal pela mediação do sumo sacerdote que na paixão Se ofereceu a Si mesmo por nós na forma de servo, para que fôssemos o corpo de uma Cabeça tão excelsa. A Igreja celebra este mistério no sacramento do altar bem conhecido dos fiéis; nele é mostrado que, naquilo que se oferece, é ela mesma que se oferece”.

Há dois corpos de Cristo sobre o altar: está o seu corpo real (o corpo “nascido” de Maria Virgem) e está o seu corpo místico, que é a Igreja. Não há nenhuma confusão entre duas presenças que são bem diversas, mas também nenhuma divisão.

A Eucaristia faz a Igreja, fazendo da Igreja uma Eucaristia!

A santidade do cristão deve realizar-se segundo a “forma” da Eucaristia; deve ser uma santidade eucarística.


3. “Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue”

Se na eucaristia estamos também nós, e nos dirigimos aos irmãos, dizendo: “Isto é o meu corpo, tomai todos e comei. Isto é o meu sangue, tomai, todos, e bebei”, temos que saber o que é corpo e sangue para saber o que oferecemos.

Na Bíblia corpo não indica um componente do homem, mas o homem todo enquanto vida vivida num corpo.

Sangue é a sede da vida, o derramamento dele significa morte.

A Eucaristia é o mistério do corpo e do sangue do Senhor, ou seja, da vida e da morte do Senhor!
O que oferecemos juntamente com Jesus, na Missa? Oferecemos também nós o que Jesus ofereceu: a vida e a morte. Com a palavra corpo doamos tudo o que constitui concretamente a vida que trazemos neste corpo: tempo, saúde, energias, capacidades, afeto, porventura um só sorriso.

Com a palavra sangue oferecemos a morte. Não necessariamente o martírio, mas tudo aquilo que desde agora, prepara e antecipa a morte: humilhações, insucessos, doenças que imobilizam, limitações devidas à idade, à saúde, tudo o que nos “mortifica”.

Logo que saímos da Missa, nos esforcemos por realizar o que dissemos. Se assim não for, tudo fica palavra vazia, mentira até.

Uma mãe de família celebra sua Missa com toda uma participação pessoal no momento da consagração. Depois vai pra para casa e começa o seu dia feito de mil pequenas coisas. A sua vida é literalmente fragmentada, fracionada como a hóstia consagrada; mas não é coisa pequena o que ela faz: é uma eucaristia juntamente com Jesus. Assim também com a freira, com os sacerdotes... Como Jesus permanece uno na fração do pão, assim uma vida gasta deste modo é unitária, não é dispersiva e aquilo que a torna unitária é o fato de ser eucaristia! Um mestre espiritual dizia: “De manhã, na Missa, eu sou sacerdote e Jesus é vítima; ao longo do dia, Jesus é sacerdote e eu vítima”.

Graças à Eucaristia já não há vidas inúteis!

4. “Vem para o Pai!”
O segredo está em oferecer-se completamente, não reservando nada para si. Tudo aquilo que alguém reserva para si perde-se, porque não se possui senão aquilo que se oferece.
“Senhor, tudo o que há, no Céu e na Terra, é vosso. Desejo consagrar-me a Vós, por uma oblação voluntária, e ser perpetuamente vosso. É, pois, na simplicidade do meu coração, que eu me ofereço a Vós neste dia, para ser eternamente vosso escravo, para Vos servir e para me imolar à vossa glória. Recebei este sacrifício, que Vos faço de mim, junto com o do vosso precioso Corpo, que vos ofereço, hoje, na presença dos anjos, que a ele assistem, invisilvemente, a fim de que seja para salvação minha e de todo o povo”. (Imitação de Cristo).
Como ter força para esta oferta total de si mesmo? A resposta é: o Espírito Santo! Jesus ofereceu-se a Si mesmo graças a um “Espírito eterno”(Hb 9,14). O Espírito Santo está na origem de cada movimento de doação de si mesmo.
Santo Inácio de antioquia, para convencer os cristãos de Roma a nada fazer para impedir o seu martírio, confia-lhes um segredo: “Há dentro de mim uma água viva que murmura e diz: Vem para o Pai”. É a voz inconfundível do Espírito de Jesus que, regressando ao Pai, agora pode dizer também ao seu discípulo: Vem, oferece-te comigo!

A Eucaristia, nossa santificação. Cantalamessa, Raniero, Paulus, São Paulo, pp. 21-36 Resumido por Pe. Marcos Oliveira 

Movimento Católico de Evangelização para reavivar e desenvolver a vida cristã-batismal na perspectiva do seguimento de Jesus Cristo.
"Eu tomo posse da graça de Deus, tomo posse da cura senhor, tomo posse das bênçãos de hoje"
Leitura:Hebreus 4, 1-14
Pregação: Gil








Movimento Católico de Evangelização para reavivar e desenvolver a vida cristã-batismal na perspectiva do seguimento de Jesus Cristo.

Resumo do Livro do Frei Raniero Cantalamessa sobre o sacramento da Eucaristia


Santíssimo Sacramento exposto para adoração, no DJC Canindezinho.

"Cristo, nossa Páscoa, foi imolado"


A Eucaristia na História da Salvação
“A Eucaristia, nossa santificação”, do Frei Raniero Cantalamessa, Paulus Editora, é o meu livro do momento. Aliás, foi um presente que ganhei de Dom José Antônio, nosso arcebispo.
Na primeira meditação, Frei Raniero enquadra o mistério da Santa Ceia no conjunto da História da Salvação. Deus revelou-Se aos homens no contexto de uma História, a qual, a partir do seu objetivo e da sua finalidade, é chamada “História da Salvação”.
Dentro da história visível e documentada do mundo, desenvolve-se pois uma outra história, cujo fio condutor não são, como sucede na história humana, as guerras e as pazes, ou as invenções do homem, mas as “invenções” de Deus, as mirabilia Dei (maravilhas da salvação), as intervenções maravilhosas e benévolas de Deus.
Todas as operações realizadas por Deus fora de Si mesmo (ad extra), da Criação até à Parusia (segunda vinda de Cristo), fazem parte dessa História.
A Eucaristia ocupa toda História da Salvação. A Eucaristia é paralela à História da Salvação: toda a História da Salvação está presente nela, e a Eucaristia está presente em toda a História da Salvação. Como numa gota de orvalho da manhã se vê refletido todo o firmamento, assim na Eucaristia se espelha o inteiro arco da História da Salvação.
A Eucaristia está presente em três modos diversos dos tempos que distinguimos na História da Salvação: Está presente no Antigo testamento como figura. Está presente no Novo Testamento como acontecimento. E está presente no tempo da Igreja, este em que nós vivemos, como sacramento. A figura antecipa e prepara o acontecimento, o sacramento “prolonga” e atualiza o acontecimento.

1. As figuras da Eucaristia
Todo o Antigo Testamento era uma preparação da Ceia do Senhor: Maná (Ex 16,4ss; Jo 6,31ss), sacrifício de Melquisedec que ofereceu pão e vinho(Gn 14,18; Sl 110,4; Hb 7,1ss), sacrifício de Isaac.
Já a partir da noite da saída do Egito, Deus contemplava a Eucaristia, já pensava em dar-nos o Cordeiro. “Eu verei o sangue – diz Deus – e passarei adiante”(Ex 12,13), ou seja, farei com que “façais Páscoa”, poupar-vos-ei e vos salvareis. Os Padres da Igreja perguntavam-se, a este ponto, acerca do que é que Deus via de tão precioso nas casas dos hebreus, para “passar adiante” e dizer ao seu anjo para não ferir, e respondiam: via o Sangue de Cristo, via a Eucaristia!
Santo Tomás de Aquino se perguntava: “Qual é então a força da realidade (ou seja, da Páscoa cristã), se já a simples figura dela era causa de salvação?” Por isso ele chegou a chamar os ritos do Antigo testamento de sacramentos da antiga lei.

2. A Eucaristia enquanto acontecimento
Chegamos então à plenitude dos tempos. A Eucaristia não já está presente como figura, mas como realidade.
A grande novidade está incluída nesta exclamação do Apóstolo: “Cristo, nossa Páscoa, foi imolado”(1Cor 5,7). Por isso, a Eucaristia pode ser chamada “o mistério antigo e novo: antigo pela prefiguração, novo pela realização”(Melitão de Sardes).
Em que consiste então, propriamente, o acontecimento que funda a Eucaristia e que realiza a nova Páscoa? Os Evangelhos dão-nos duas respostas diversas, mas complementares. Conjuntamente, permitem ter uma visão mais compreensiva do mistério, como uma coisa vista de dois ângulos diversos: a imolação no templo e a ceia nas casas.
O Evangelista João olha de preferência para o momento da imolação. Para ele a Páscoa cristã – e portanto, a Eucaristia – é instituída na cruz, no momento em que Jesus, verdadeiro Cordeiro, é imolado.
João estabelece um sincronismo singular. Mostra uma aproximação “temporal”, de um dia e de uma hora exatos, e uma aproximação “espacial” em direção a Jerusalém, até que estes dois momentos convergem e se entrecruzam no Calvário, na tarde de 14 de Nisan, precisamente no momento em que, no templo, começava a imolação dos cordeiros pascais. Também, como acontecia com tais cordeiros, em Jesus também não foi quebrado nenhum osso (Ex 12,46; Jo 19,36).
Os outros três evangelistas sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) olham de preferência para a Ceia. É na Ceia, precisamente na instituição da Eucaristia, que se cumpre, na opinião dos três, a passagem da antiga para a nova Páscoa.
Eles dão grande relevo à preparação da Última Ceia pascal celebrada por Jesus antes de morrer (Lc 22,11). Poderíamos dizer que a Ceia dos sinóticos contém já o acontecimento pascal da imolação de Cristo, como a ação simbólica antecipa, por vezes, nos profetas, o acontecimento anunciado.
O quebrar da bilha por Jeremias(19,1ss) ou o deitar-se no chão de Ezequiel(4,4), não é uma simples ilustração didática do anúncio oral, é uma prefiguração criadora da realidade futura a que se devia seguir imediatamente a realização. A esta luz, o gesto que Jesus faz na Última Ceia, partindo o pão e instituindo a Eucaristia, é a suprema ação simbólica e profética da História da Salvação.
A imolação que João enxerga na Cruz é, então, o mesmo acontecimento fundamental que os outros três evangelistas percebem na Última Ceia: a morte e a ressurreição.
O acontecimento que funda, ou institui, a Eucaristia é a morte e a ressurreição de Cristo, o seu “dar a vida para retomá-la de novo”.
João acentua o momento da imolação real (a Cruz). Os sinóticos acentuam o momento da imolação mística (a Ceia). Santo Efrém dizia: “Na Ceia Jesus imolou-Se a Si mesmo; na cruz foi imolado por outros”.
Chamamos-lhe “acontecimento” porque é qualquer coisa acontecida historicamente, um fato único no tempo e no espaço, acontecido uma só vez e irrepetível: “Cristo manifestou-Se uma vez por todas, no fim dos tempos, para abolir o pecado pelo sacrifício de Si mesmo”(Hb 9,26).
Mas não se trata de simples “acontecimentos”. Estes acontecimentos têm uma razão, um “porquê”, que constitui como que a alma desses acontecimentos, e que é o amor. A Eucaristia nasce do amor; tudo se explica com este motivo: porque nos amava. “Cristo amou-nos e entregou-Se a Deus por nós, como oferta e vítima, como perfume agradável” (Ef 5,2).
Poderíamos continuar a falar longamente do acontecimento da cruz, da qual brota a Eucaristia, e cuja riqueza jamais esgotaríamos.
Em relação a grande história do mundo, neste acontecimento tão pequeno existe tanta energia que nele repousa a própria salvação deste mundo. Por analogia, lembramos o átomo que, apesar de tão pequeno, possui uma imensa energia.

3. A Eucaristia enquanto Sacramento
Padre erguendo o cálice na Santa Missa.

Neste tempo da Igreja em que vivemos, a terceira fase da História da Salvação, a Eucaristia está presente como sacramento, nos sinais do pão e do vinho, intituído por Jesus na Última Ceia com estas palavras: “Fazei isto em memória de Mim”.
Aqui temos História e Liturgia. Como acontecimento, aconteceu uma só vez, mas como sacramento, renova-o periodicamente. Acontecimento e Sacramento não estão em contraste entre si, como se o Sacramento fosse ilusório e só o acontecimento fosse verdadeiro.
De fato, aquilo que a História afirma que aconteceu na realidade, o Sacramento renova-o frequentemente no coração dos fiéis. A Missa renova o acontecimento da cruz celebrando-o (não repetindo-o!) e celebra-o renovando-o (não somente recordando-o!).
A palavra, na qual se realiza hoje o maior consenso ecumênico, é porventura o verbo representar, entendido no sentido de re-apresentar, ou seja, de tornar de novo presente. Graças ao Sacramento da Eucaristia, tornamo-nos, misteriosamente, contemporâneos do acontecimento.
O Espírito Santo é quem atualiza o acontecimento da morte e ressurreição de Jesus, que fundou a Eucaristia. Se celebrarmos também nós, – como fez Jesus na Cruz – a nossa Missa “na companhia do Espírito Santo”, Ele dará um recolhimento novo às nossas celebrações. Fará verdadeiramente de nós – como pedimos no cânone da Missa – “uma oferenda permanente” agradável a Deus!

A Eucaristia, nossa santificação. Cantalamessa, Raniero, Paulus, São Paulo, pp. 5-20 Resumido por Pe. Marcos Oliveira