Movimento Católico de Evangelização para reavivar e desenvolver a vida cristã-batismal na perspectiva do seguimento de Jesus Cristo.

Adoração é diferente de veneração. Adoração é culto de latria; veneração é dulia, destinada aos santos; e hiperdulia, veneração devida a Nossa Senhora.

      Dos Santos Magos está escrito que, depois de deixar para trás em Jerusalém as discussões dos sacerdotes e as intrigas de Herodes, recomeçaram com intensa alegria a seguir a estrela, encontraram o Menino e “prostrando-se, o adoraram” (Mt 2,11). Para nós, com efeito, chegou o momento de nos prostrarmos e adorar.


      Se o pecado que torna os homens “sem desculpas” é o de não reconhecer a Deus como Deus, então seu antídoto específico é unicamente a adoração, por ser reservada exclusivamente a Deus, atesta adequadamente que se reconhece a Deus “como Deus”. Na adoração é levado à expressão máxima aquilo que o Apóstolo chama “prestar glória e dar graças”, isto é, o reconhecimento e a gratidão para com Deus.


      Foi no Novo Testamento – dizíamos acima – que elevou a palavra “adoração” a essa dignidade que antes não tinha. No Novo Testamento, toda vez que se tenta adorar alguém que não seja Deus em pessoa, a reação imediata é: “Não faças isto! A Deus é que se deve adorar (cf. Ap 19,10; 22,9; At 10-25-26; 14,13s). Como se, caso contrário, se incorresse num perigo mortal. A Igreja acolheu esse ensinamento, fazendo da adoração o ato por excelência do culto de latria, distinto do chamado dulia, reservado aos Santos, e da hiperdulia, reservado a Nossa Senhora. A adoração é, pois, o único ato religioso que não se pode oferecer a ninguém no universo inteiro, nem sequer à Santíssima Virgem, mas só a Deus. Disso lhe provém sua dignidade e forças únicas.


      Mas em que consiste ao certo e como se manifesta a adoração? A adoração pode ser preparada por uma longa reflexão, mas termina com uma intuição e, como qualquer intuição, não têm longa duração. É como um lampejo de luz dentro da noite. Mas de uma luz especial: não tanto luz de verdade, como luz da realidade. É a percepção da grandeza, majestade, beleza e, juntamente, da bondade de Deus e de sua presença que tolhe a respiração. É uma espécie de naufrágio no oceano sem margens nem fundo da majestade divina. Mas “naufragar” é doce nesse mar”.


      Uma expressão de adoração mais eficaz que qualquer palavra é o silêncio. Com efeito, ele exprime por si mesmo que a realidade supera qualquer palavra. Com que força ressoa na Bíblia a intimação: “Cale-se diante dele toda a terra!” (Hab 2,20) e: “Silêncio na presença do Senhor Deus!” (Sf 1,7). Quando “os sentidos estão envolvidos num silêncio limitado e com ajuda do silêncio envelhecem as recordações”, então só nos resta adorar.


      Conforme alguns, a própria palavra “adorar” indicaria, em latim, o gesto de pôr a mão sobre a boca, como para impor a si mesmo o silêncio. Se isso for verdade, foi um gesto de adoração o de Jó, quando, ao encontrar-se sozinho face a face com o Onipotente, no fim de sua aventura, diz: “Sim, fui leviano; que te replicarei? Ponho a mão sobre minha boca” (Jó 40,4). Nesse sentido, o versículo de um salmo, depois incluído na liturgia, rezava no texto hebraico: “Para ti o silêncio é louvor”, Tibi silentium laus! (sl 65,2, texto masorético). Adorar, segundo a estupenda expressão de são Gregório Nazianzeno citada acima, significa elevar a Deus um “hino de silêncio”. Assim como, à medida que se escala uma alta montanha, o ar vai ficando rarefeito, assim à medida que nos avizinhamos de Deus a palavra deve tornar-se mais breve, até chegar, no fim, à completa mudez e unir-se em silêncio àquele que é inefável.


      Se se quiser dizer alguma coisa precisamente para “prender” a mente e impedi-la de vagar em outros objetos, convém fazê-lo com a palavra mais breve que existe: Sim, Amém. De fato, adorar é consentir. É permitir que Deus seja Deus. É dizer sim a Deus como Deus e a si mesmo como criatura de Deus. E é, por isso, o remédio para desespero, que consiste precisamente, como vimos, num “recusar desesperadamente ser aquilo que se é”, isto é, dependente de Deus.


      A adoração exige, pois, que se reze e se cale. Mas seria tal atitude digna de um homem? Não o humilha, ferindo sua dignidade? Ou melhor, seria ela verdadeiramente digna de Deus? Que Deus é esse, se necessita que suas criaturas se prostrem por terra diante dele e se calem? Seria talvez Deus semelhante a um desses soberanos orientais que inventaram a adoração em seu proveito? Inútil é negá-lo, a adoração comporta para as criaturas também um aspecto de radical humilhação, um se tornar pequeno, um entregar-se. Foi exatamente isso, como vimos, que obstou a que os pagãos adorassem a Deus como Deus. A adoração sempre comporta um aspecto de sacrifício, de imolação de qualquer coisa. Precisamente assim, ela atesta que Deus é Deus e que nada nem ninguém tem direito de existir diante dele, a não ser graças a ele. Com a adoração, imola-se e se sacrifica o próprio eu, a própria glória, a própria autossuficiência. Mas essa glória é falsa e inconsistente, e desfazer-se dela é para o homem uma libertação.


      Adorando, “liberta-se a verdade antes prisioneira da injustiça”. A pessoa torna-se “autêntica” no sentido mais profundo da palavra. Na adoração antecipa-se já o retorno de todas as coisas a Deus. O indivíduo abandona-se ao sentido e ao fluxo do ser. Assim como a água encontra a paz fluindo para o mar, e o pássaro, a alegria abandonando-se ao curso do vento, assim o adorador na adoração. Adorar a Deus não é pois um dever, uma obrigação, quanto um privilégio, ou melhor, uma necessidade. O homem carece de alguma coisa majestosa para amar e adorar! Ele é feito para isso. Não é, pois, Deus quem precisa de adoração, mas o homem, de adorar. 


      Acreditava, Kierkegaard, que “o homem, cujo corpo se ergue para o céu, é um ser que adora. Sua estatura é o sinal que o contra distingue, mas a capacidade de prostrar-se em adoração é uma característica ainda maior. A glória suprema consiste em ser nada adorando. Alguns percebem a semelhança com Deus no poder da dominação. Mas não é dominando como Deus que o homem é semelhante a Deus. A semelhança se encontra no interior de uma infinita diferença. Explico-me: o homem e Deus se assemelham em uma relação não direta, mas inversamente proporcional. Para haver semelhança entre eles é preciso que Deus se torne o objeto eterno e onipresente da adoração e que o homem se torne uma criatura incessantemente adoradora. Se o homem pretende tornar-se semelhante a Deus mediante a dominação, esquece Deus e, desaparecido Deus, brinca de soberano em sua ausência. Isto é o paganismo: a vida do homem na ausência de Deus”.


      Mas a adoração deve ser livre. O que torna a adoração digna de Deus e simultaneamente digna do homem é a liberdade, entendida não só negativamente como ausência de coação, mas também positivamente como ímpeto alegre, dom espontâneo da criatura que exprime assim a alegria de não ser ela mesma Deus, para poder ter acima de si um Deus para adorar, admirar, celebrar.

      Também para Deus o valor da adoração está na liberdade. “Eu mesmo sou livre, diz Deus, e criei o homem à minha imagem e semelhança... A liberdade dessa criatura é o mais belo reflexo da liberdade do criador que haja no mundo...Quando uma vez se experimentou o ser amado livremente, as submissões não têm mais gosto algum. Quando se provou o ser amado por homens livres, a prostração dos escravos não têm mais sentido algum”.

 

     “Senhor eu não posso abster-me de amar-te; eu preciso de algo majestoso para amar. Há em minha alma a necessidade de uma majestade que nunca, nunca me cansarei de adorar”.

 

(Texto retirado do livro Subida ao Monte Sinai de Raniero Cantalamessa, capítulo 28, Algo Majestoso para amar, págs 165 a 169, Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 1997).


Imagem: Jesus Vetores por Vecteezy

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São Paulo Apóstolo de Jesus. Senhor, o que queres que eu faça?

“Senhor, o que queres que eu faça?” ( At 9,6; At 22, 10)

 

Você talvez esteja distraído, como Paulo estava, talvez até muito envolvido em alguma tarefa que acredite ser importante neste exato momento.

 

De repente, o Senhor aparece, lhe dirige a Palavra e a primeira coisa que você precisa fazer é se perguntar: Senhor, o que queres que eu faça?

 

E o momento em que o Senhor lhe fala pode ser exatamente este aqui, enquanto você está lendo este texto, que é apenas um pequeno instrumento, um pequeno pretexto para Ele lhe alcançar.

 

Foi assim que Paulo fez. Colocou a pergunta e esperou de Deus a resposta. E isso já sinaliza três coisas muitos importantes para uma vida plenamente realizada: se Paulo ouve a voz do Senhor, embora ali, Deus tenha agido de forma sobrenatural mesmo, já está se abrindo para um grau de intimidade com o Senhor, já é sinal de que está aberto a Ele.

 

Então, podemos dizer que a primeira coisa fundamental para que você seja uma pessoa realizada, de verdade, é ter uma intimidade com Deus, intimidade esta que poderá crescer a cada dia. E aqui convém lembrar que apenas estar na Igreja, ir a encontros de oração não é o suficiente para cultivar a intimidade com o Senhor.

 

Exemplo disso é exatamente São Paulo, ele vivia no templo, era um estudioso da Lei, estudou na melhor escola, a de Gamaliel. Mas não foi capaz de reconhecer Jesus, seus discípulos e, em vez de ser um com eles, os perseguia. Estava cego, cheio de orgulho e preso apenas à Lei, como se o homem conseguisse sozinho, por suas próprias forças ser justo. E só mudou após aquele encontro pessoal com Jesus, a ponto de depois afirmar em uma de suas cartas aos coríntios: “Foi ele que nos tornou capazes de sermos ministros de uma aliança nova, não aliança da letra, mas do Espírito; pois a letra mata, e o Espírito é que dá a vida.” (2 Cor 3, 6)

 

O encontro pessoal com Cristo muda radicalmente a pessoa que abandona a mentalidade e o modo de viver de até então e sente necessidade interior de abraçar o novo que o Senhor lhe propõe! “Por causa de Cristo, porém, tudo o que eu considerava como lucro, agora considero como perda. E mais ainda: considero tudo uma perda, diante do bem superior que é o conhecimento do meu Senhor Jesus Cristo. Por causa dele perdi tudo, e considero tudo como lixo, a fim de ganhar Cristo, e estar com ele. (Fl 3,7-9)

 

Por isso, você precisa, no seu dia a dia tirar tempo para cultivar esse relacionamento, estar a sós com Deus, para conversar com Ele, para ouvi-lo através da sua Palavra. Para você ter este encontro pessoal com Jesus, de pessoa para pessoa, de ser humano frágil e pecador com Deus Santo e cheio de misericórdia. Em resumo, você precisa reservar tempo para a Oração e meditação da Palavra de Deus. E “a oração é um trato de amizade com Deus”, já dizia Santa Teresa. Ou seja, orar é conversar com o Bom Deus. Do mesmo modo que você conversa com seus amigos, você precisa conversar com Ele, que deve ser o seu amigo mais íntimo, para quem você fala TUDO, diante de quem vocês expõe suas questões, suas dúvidas, seus sonhos e projetos. E também para quem você pergunta: Senhor, o que queres que eu faça?

 

A grande pergunta paulina sinaliza o nosso segundo ponto de reflexão: o senhorio de Jesus sobre nossa vida e a renúncia a nossa vontade própria, pois uma coisa implica na outra. Quando você se coloca esta pergunta - “Senhor, que queres que eu faça?” - já demonstra que não quer viver de acordo com seus pensamentos, suas vontades, seus planos humanos. Pelo contrário, você agora quer viver segundo a vontade de Deus, quer saber não apenas o que agrada a Deus, mas o que mais lhe agrada a fim de melhor servi-lo e agradá-lo.

 

Ao deixar-se guiar pela Vontade Divina, que tudo faz para que sejamos felizes, permitimos a ação de Deus em nós, já não nos pertencemos, damos livre acesso a Ele e buscamos agora viver sob a Graça do Espírito Santo, sermos guiados unicamente por Ele e não por nossa carne, nossos instintos. E então, estamos no caminho da verdadeira realização, da verdadeira felicidade tão desejada por todos os homens de todos os tempos.

 

Além de tudo isso que falamos anteriormente, a pergunta paulina é uma pergunta vocacional. Paulo quer saber qual o chamado que Deus tem para ele, qual a missão que o Senhor quer confiá-lo. E assim deve ser também a nossa pergunta para Deus: “Senhor, o que queres que eu faça?”; Qual a missão que o Senhor quer me confiar? Aonde queres me enviar? Sabendo que ao perguntar já estou me disponibilizando para assumi-la com todo amor e zelo. Amor este que virá do próprio Senhor à medida que eu estreite a minha amizade com Ele, permitindo-me ser revestido da parresia, do amor pelas almas que vem do Espírito Santo.

 

E qual é a grande e principal missão que Deus me dá? Vejamos a resposta da boca do próprio Jesus: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura!” (Mc 16,15). Eis o grande mandato missionário de Jesus, confiado a cada cristão, por isso, com a nossa Santa Mãe Igreja Católica Apostólica Romana, podemos dizer: nossa missão é evangelizar. E esta é uma missão grandiosa, pois dela depende a salvação das almas. Salvação que é vida feliz já aqui nesta terra e que se estende por toda eternidade.

 

Deu para sentir o tamanho da sua missão? Do teu encontro pessoal com Jesus, da tua entrega ao Seu senhorio e da tua vida missionária, depende a salvação do mundo inteiro. Pois já nos diz o Senhor em Isaías 49,6: “eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até aos confins da terra”.

 

E Evangelizar é apresentar um amigo ao grande Amigo Jesus, ajudando-o a vivenciar um encontro pessoal com o Senhor, para que Ele assim como você seja impactado pela pessoa de Jesus, tornando-se também um amigo íntimo dele que, por sua vez, alcançará outros que alcançarão outros para a Graça da Salvação chegar aos confins da terra. Já dizia Bento XVI: “A maior caridade é a evangelização”.

 

E, para nós, o grande modelo de discípulo missionário é São Paulo Apóstolo! Ele após seu encontro pessoal com Jesus Cristo não mediu esforços para evangelizar, não perdeu tempo, usou de todos os meios que teve acesso, aproveitou todas as oportunidades que Deus lhe concedeu para evangelizar e discipular pessoas, nos momentos oportuno e inoportunos. Ele tinha uma “determinada determinação”, como dizia Santa Teresa, por alcançar almas. Ecoava em seu interior a frase: “Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!” (1 Cor 9,16)

 

Que nós também nos deixemos envolver pelo amor do Senhor em salvar a humanidade e aceitemos ser mais um operário de sua messe tão necessitada de evangelizadores que comuniquem o Senhor através de seu modo de viver, de seu testemunho pessoal, de seu serviço a todos os que necessitam de algum tipo de apoio, de sua oração como intercessão constante em favor do próximo, da sua abertura e acolhida ao outro através do diálogo e da escuta sincera e do seu anúncio explícito do Evangelho para a Salvação de todos.

 

Tomemos para nós com toda reverência e disposição interior o mesmo que foi dito para Paulo:

“O Deus de nossos antepassados escolheu-te para conheceres a sua vontade, veres o Justo e ouvires a sua própria voz. Porque tu serás a sua testemunha diante de todos os homens, daquilo que viste e ouviste. E agora, o que estás esperando? Levanta-te, recebe o batismo e purifica-te dos teus pecados, invocando o nome dele!” (At 22,14-16).

 

Compreendamos a urgência da evangelização e corramos para o cumprimento da nossa missão com o amor e a alegria de Jesus Ressuscitado para impactarmos o mundo inteiro!

 

Graça e Paz!

 

Edilma Saboia

Discípula Consagrada de Aliança do DJC


Movimento Católico de Evangelização para reavivar e desenvolver a vida cristã-batismal na perspectiva do seguimento de Jesus Cristo.

Pessoa intercedendo com terço na mão.

Seja quem você for, leva um povo em você. A eles você deve a sua intercessão.

O intercessor é chamado a ser o mediador entre Deus e os homens. No entanto, é preciso que tenha clareza sobre sua própria condição humana, de ser frágil e pecador. Para isso precisa estar livre de qualquer cegueira espiritual, assumindo suas fraquezas e oferecendo-as em sacrifício por si mesmo e pelos irmãos. E tendo você conhecido e experimentado as próprias fragilidades será capaz de se compadecer dos outros.

 

Santa Teresa de Jesus nos fala que a tarefa mais difícil é permanecer unido Àquele que é tão diferente de nós. Ele todo santo, nós tão pecadores. Chega a ser angustiante perceber o quanto ainda estamos longe daquilo que Ele deseja. Mas ao mesmo tempo é consolador saber que Ele faz questão de estar conosco, de derramar sobre nós a Sua misericórdia, de resgatar sempre aqueles que Ele ama. Esse perceber Deus conosco, amando-nos e resgatando-nos, para além de todas as nossas misérias, é experimentar a misericórdia divina que nos permitirá olhar o outro também como um pobre necessitado de compaixão e nos fará pedir por ele, assumindo em nós o desejo de Deus que é sempre salvar a humanidade.

 

Para você se tornar um ser de misericórdia e de fidelidade para os irmãos, é preciso provar da misericórdia, da fidelidade de Deus na oração. E, para isso, provar de sua própria miséria e infidelidade... E, nesse coração de misericórdia, você encontra a miséria de seus irmãos. “No céu serão glorificados todos aqueles que oraram pelo mundo inteiro e levaram para os céus os sofrimentos do mundo, pois tinham o amor de Cristo, e o amor não suporta que pereça uma alma sequer” (Silouane). Desta forma, interceder é, por excelência, uma obra de caridade.

 

Daí a grande necessidade de o intercessor viver sempre unido a Deus pela oração. Ele precisa conhecer profundamente o Senhor e ao mesmo tempo conhecer a si próprio. Pedir sempre a graça do autoconhecimento para ver suas misérias, seu pecado, arrepender-se e pedir perdão. Assim, com humildade pode se dirigir a Deus para pedir por si e pelos demais, pois “Deus resiste aos soberbos, e aos humildes dá a sua graça” (Tg 4,6). Unindo seu sacrifício ao de Cristo, o intercessor aniquila-se a si mesmo, doa-se por completo, aceita perder tudo pela realização do projeto do Senhor e a salvação das almas. Ele pede, intervém e o faz com convicção porque conhece a miséria humana e experimenta cotidianamente a misericórdia do coração de Deus.

 

Por isso podemos dizer que toda intercessão é apenas uma participação na intercessão de nosso Senhor Jesus. O Evangelho nos deixa entrever que sua intercessão é constante. Alguns pedaços foram filtrados, até na cruz: “Pai, perdoa!”. Sua última oração, real e sacerdotal, não é mais que uma grande intercessão, que pede para nós o essencial: a proteção do mal, a comunhão, a glória, a alegria, quer dizer, o Espírito!

“A intercessão é uma oração de pedido que nos conforma de perto com a oração de Jesus. Ele é o único Intercessor junto do Pai em favor de todos os homens, dos pecadores, sobretudo. Ele é "capaz de salvar de modo definitivo aqueles que por meio dele se aproximam de Deus, visto que Ele vive para sempre para interceder por eles" (Hb 7,25). O próprio Espírito Santo "intercede por nós... pois é segundo Deus que ele intercede pelos santos" (Rm 8,26-27).

 

Interceder, pedir em favor de outro, desde Abraão, é próprio de um coração que está em consonância com a misericórdia de Deus. No tempo da Igreja, a intercessão cristã participa da de Cristo; é a expressão da comunhão dos santos. Na intercessão, aquele que ora "não procura seus próprios interesses, mas pensa sobretudo nos dos outros" (Fl 2,4) e reza por aqueles que lhe fazem mal” (CIC, 2634 - 2635).

 

Seu coração não pode aproximar-se do Coração de Deus sem ser dilatado ao infinito. Ele passa a abraçar cada pessoa humana. Nenhuma pessoa é estrangeira para você. Nenhum acontecimento do mundo ou da Igreja está distante de você. Apaixonado de Deus, você está apaixonado por tudo.

 

Assim como os monges no deserto reúnem em si uma multidão, o intercessor também traz em si os apelos de todo o povo de Deus.

 

A intercessão é a súplica que se transmuda em compaixão. A intercessão, como a compaixão, jorra da ferida de um coração compassivo como o de Deus.

 

Interceder é interpor-se entre o coração do homem e o Coração de Deus. É gritar para Deus todos os gritos dos homens e lançar para o homem todos os gritos de Deus.

 

Como Moisés, você sobe a montanha e fica diante de Deus em nome e no lugar de seu povo para poder, depois, descer e ficar diante do seu povo, em nome e no lugar de Deus. Na montanha, ele é o embaixador, o porta-voz dos seus. Tendo descido, é o embaixador, o porta-voz de Deus. Como ele, com uma mão você segura a dos seus, com a outra a de Deus. E não há de parar enquanto suas duas mãos – a humana e a divina – não estiverem juntas. Ele prefere ser morto ou rejeitado a ser arrancado de seu povo.

 

“Moisés, o grande profeta e guia do tempo do Êxodo, desempenhou a sua função de mediador entre Deus e Israel fazendo-se portador, junto do povo, das palavras e dos mandamentos divinos, conduzindo-o rumo à liberdade da Terra Prometida, ensinando os israelitas a viverem na obediência e na confiança em Deus, durante a sua longa permanência no deserto, mas também, e diria principalmente, rezando. Ele reza pelo Faraó quando Deus, com as pragas, procurava converter o coração dos Egípcios (cf. Êx 8–10); pede ao Senhor a cura da irmã Maria, atingida pela lepra (cf. Nm 12, 9-13), intercede pelo povo que se tinha revoltado, amedrontado pela descrição dos exploradores (cf. Nm 14, 1-19), reza quando o fogo estava prestes a devorar o acampamento (cf. Nm 11, 1-2) e quando serpentes venenosas faziam matanças (cf. Nm 21, 4-9); dirige-se ao Senhor e reage, protestando quando o fardo da sua missão se tinha tornado demasiado pesado (cf. Nm 11, 10-15); vê Deus e fala com Ele «face a face, como alguém que fala com o próprio amigo» (cf. Êx 24, 9-17; 33, 7-23; 34, 1-10.28-35).

 

Mesmo quando o povo, no Sinai, pede a Araão que construa o bezerro de ouro, Moisés reza, explicando de maneira emblemática a própria função de intercessão.

 

Enquanto o Senhor, no monte, oferece a Lei a Moisés, aos pés do mesmo monte o povo transgrede-a. Incapazes de resistir à expectativa e à ausência do mediador, os israelitas pedem a Araão: «Faz-nos um deus que caminhe à nossa frente, porque a Moisés, que nos tirou do Egipto, não sabemos o que lhe aconteceu» (Êx 32, 1). (...) Aquilo que acontece no monte Sinai demonstra toda a insensatez e vaidade ilusória desta pretensão porque, como afirma ironicamente o Salmo 106, «Eles trocaram a sua glória pela estátua de um touro que come feno» (Sl 106 [105], 20). Por este motivo, o Senhor reage e ordena a Moisés que desça do monte, revelando-lhe aquilo que o povo estava a fazer, e terminando com estas palavras: «Deixa, pois, que se acenda a minha cólera contra eles e os devore; mas de ti farei uma grande nação» (Êx 32, 10). Como tinha acontecido com Abraão, a propósito de Sodoma e Gomorra, também agora Deus revela a Moisés o que pretende fazer, como se não quisesse agir sem o seu consenso (cf. Am 3, 7). Ele diz: «Deixa, pois, que se acenda a minha cólera». Na realidade, este «deixa, pois, que se acenda a minha cólera» é pronunciado precisamente para que Moisés intervenha e lhe peça para não o fazer, revelando deste modo que o desejo de Deus é sempre a salvação. Como para as duas cidades dos tempos de Abraão, a punição e a destruição, em que se exprime a ira de Deus como rejeição do mal, indicam a gravidade do pecado cometido; ao mesmo tempo, o pedido do intercessor tenciona manifestar a vontade de perdão do Senhor. Esta é a salvação de Deus, que implica misericórdia, mas ao mesmo tempo também denúncia da verdade do pecado, do mal que existe, de maneira que o pecador, reconhecendo e rejeitando o próprio mal, possa deixar-se perdoar e transformar por Deus. A prece de intercessão torna deste modo concreta, no contexto da realidade corrompida do homem pecador, a misericórdia divina, que encontra voz na súplica do orante e que se torna presente através dele onde há necessidade de salvação.

 

A súplica de Moisés está inteiramente centrada na fidelidade e na graça do Senhor. Ele refere-se em primeiro lugar à história de redenção à qual Deus deu início com a saída de Israel do Egipto, para depois fazer memória da antiga promessa feita aos Pais. O Senhor realizou a salvação, libertando o seu povo da escravidão egípcia; para que então — pede Moisés — «os egípcios possam dizer: “Fê-los sair com a malícia, para os deixar morrer nas montanhas, para os fazer desaparecer da face da terra”?» (Êx 32, 12). A obra de salvação começada deve ser completada; se Deus fizesse perecer o seu povo, isto poderia ser interpretado como o sinal de uma incapacidade divina de completar o plano de salvação. Deus não pode permitir que isto aconteça: Ele é o Senhor bom que salva, o garante da vida, é o Deus de misericórdia e de perdão, de libertação do pecado que mata. E assim Moisés apela-se a Deus, à vida interior de Deus, contra a sentença exterior. Mas então, Moisés argumenta com o Senhor, se os seus eleitos perecerem, mesmo que sejam culpados, Ele poderia parecer incapaz de derrotar o pecado. E isto não se pode aceitar. Moisés fez uma experiência concreta do Deus de salvação, foi enviado como mediador da libertação divina e agora, mediante a sua oração, torna-se intérprete de uma dupla inquietação, preocupado com o destino do seu povo, mas ao mesmo tempo também preocupado com a honra que é devida ao Senhor, pela verdade do seu Nome. Com efeito, o intercessor deseja que o povo de Israel seja salvo, porque é o rebanho que lhe foi confiado, mas inclusive a fim de que naquela salvação se manifeste a verdadeira realidade de Deus. Amor aos irmãos e amor a Deus compenetram-se na prece de intercessão, são inseparáveis. Moisés, o intercessor, é o homem contendido entre dois amores, que na oração se sobrepõem num único desejo de bem.

 

Moisés faz memória da história fundadora das origens, dos Pais do povo e da sua eleição, totalmente gratuita, em que só Deus tivera a iniciativa. Eles não receberam a promessa por causa dos seus méritos, mas pela livre escolha de Deus e do seu amor (cf. Dt 10, 15). E agora, Moisés pede que o Senhor continue na fidelidade à sua história de eleição e de salvação, perdoando o seu povo. O intercessor não apresenta desculpas para o pecado do seu povo, não enumera méritos presumíveis, nem do povo nem seus, mas apela para a gratuidade de Deus: um Deus livre, totalmente amor, que não cessa de procurar quem se afastou, que permanece sempre fiel a Si mesmo e oferece ao pecador a possibilidade de voltar para Ele e de se tornar, mediante o perdão, justo e capaz de fidelidade. Moisés pede a Deus que se mostre até mais forte do que o pecado e a morte e, com a sua oração, suscita este revelar-se divino. Mediador de vida, o intercessor solidariza com o povo; desejoso unicamente da salvação que o próprio Deus deseja, ele renuncia à perspectiva de se tornar um novo povo agradável ao Senhor. A frase que Deus lhe tinha dirigido, «de ti farei uma grande nação», nem sequer é tomada em consideração pelo «amigo» de Deus, que ao contrário está pronto a assumir sobre si mesmo não só a culpa do seu povo, mas todas as suas consequências. Quando, depois da destruição do bezerro de ouro, ele voltar ao monte para pedir de novo a salvação de Israel, dirá ao Senhor: «Rogo-te que lhes perdoes agora este pecado! Senão, apaga-me do livro que escreveste» (v. 32). Com a oração, desejando a vontade de Deus, o intercessor entra cada vez mais profundamente no conhecimento do Senhor e da sua misericórdia, tornando-se capaz de um amor que chega até ao dom total de si mesmo. Em Moisés, que está no alto do monte face a face com Deus e que se faz intercessor para o seu povo e se oferece a si próprio — «apaga-me» — os Padres da Igreja viram uma prefiguração de Cristo que, no alto da cruz, realmente está diante de Deus, não apenas como amigo, mas como Filho. E não só se oferece — «apaga-me» — mas com o seu coração trespassado faz-se cancelar, torna-se como diz o próprio são Paulo, pecado, carrega sobre si os nossos pecados para nos salvar a todos; a sua intercessão é não só solidariedade, mas identificação connosco: traz todos nós no seu corpo. E assim toda a sua existência de homem e de Filho é um clamor ao Coração de Deus, é perdão, mas perdão que transforma e renova.

 

Penso que devemos meditar sobre estas realidades. Cristo está diante do Rosto de Deus e reza por mim. A sua oração na Cruz é contemporânea a todos os homens, contemporânea a mim: Ele reza por mim, sofreu e sofre por mim, identificou-se comigo, assumindo o nosso corpo e a nossa alma humana” (Bento XVI, A intercessão de Moisés pelo povo).

 

Seja quem você for, leva um povo em você. A eles você deve a sua intercessão. Se você está em situação de autoridade, orar por aqueles pelos quais você é responsável é uma exigência, perdão, uma necessidade do coração!

 

“Meu irmão é a minha vida. Sofro o seu afastamento de Deus como se fosse meu. Ele inspira a oração como se tratasse de meu próprio afastamento” (Silouane).

 

Você é então a voz dos que não têm voz. Dos que nunca rezam; nunca pensam em lançar para Deus esses gritos que os roem a partir de dentro. É a oração tão simples, tão bela, ensinada pelo Anjo aos pequeninos pastores de Fátima que gostam muito de repetir após cada dezena do rosário: “Meu Deus, eu creio, adoro, espero e te amo.

 

A intercessão pode significar um combate, uma luta, um corpo a corpo com aquele que nos agride de todos os lados para desviar-nos de nosso trabalho de intercessor, nos fazer relaxar nossa vigilância sobre o mundo, fazer com que nossos braços caiam enquanto o povo combate na planície. Ele não suporta que sejamos Moisés com os braços em cruz, sustentando o povo que combate na planície, que estejamos conversando com Deus e pedindo que Ele cumpra suas promessas pela salvação do Seu povo e para manter a Sua glória.

 

 “Interceder é aceitar colocar-se no coração de uma situação crucificante que nos coloca entre duas partes em conflito, que nos torna totalmente solidários com o homem e totalmente solidários com Deus. Situação que não temos o direito de abandonar, pois é compromisso daquele que se identifica com as duas partes a ponto de destruir, na ruptura do seu ser, a divisão que existe entre os dois. A encarnação nos mostra essa dupla solidariedade total, sem limites, com todas as suas conseqüências dilacerantes e crucificantes, e a onda de amor que a seguiu. Intercessão e contemplação se unem nessa presença cada vez mais aguda de Deus e do mundo no coração daquele que reza, presença que se torna tão densa que no fundo dela se descobrem, envolvido em seu amor, aqueles pelos quais se ora” (A. Bloom).

 

Adaptado por Edilma Saboia

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O Espírito move a Igreja a rezar

 Bíblia Sagrada

Observamos duas coisas em Jesus: primeiro, que orava incessantemente, que a oração era o próprio tecido de sua vida; segundo, que orava “no Espírito”. Embora Cantalamessa coloque em destaque a oração na vida dos sacerdotes e pastores, nós iremos direcioná-la para a realidade DJC.

 

Os textos conciliares do Vaticano II falam com insistência da importância da oração, especialmente da oração litúrgica na vida dos presbíteros e dos bispos. Mas gosto de lembrar sobretudo o texto de Atos 6,4, no qual Pedro, na primeira repartição dos ministérios feita na Igreja, reserva a si e aos outros apóstolos a oração e o anúncio da palavra: Nós, ao contrário, nos dedicaremos a oração e ao ministério da palavra. Pedro, ou melhor, o Espírito Santo por sua boca, naquela ocasião afirmou um princípio fundamental para a Igreja: que um pastor pode delegar quase tudo na sua vida, mas não pode delegar a oração.

 

Esta passagem dos Atos, relativa à instituição dos diáconos, lembra sob muitos aspectos o texto do Êxodo (Ex 18, 13-24) em que se fala da instituição de juízes. Pedro repete na Igreja o que Moisés havia feito no povo de Israel.

 

Aceitando o conselho de Jetro, Moisés escolhe para si, entre todas as funções possíveis, aquela de “estar diante de Deus em nome do povo e apresentar as questões a Deus”. Isto não impede que Moisés exerça uma atividade legislativa e que continue a ser o verdadeiro guia do povo: apenas estabelece uma prioridade.

 

A propósito de “apresentar as questões a Deus”, ouvi esta estória do papa João XXIII. Ele mesmo contava que, nos primeiros dias de pontificado, acordava bruscamente de noite com muitos problemas na cabeça, um mais angustiante que o outro, e dizia a si mesmo: “É absolutamente necessário que eu diga isto ao Papa!” Mas depois, de repente, lembrava-se que o Papa agora era ele mesmo, e então dizia: “Bem, então falarei disto com Deus”, e voltava a dormir.

 

A decisão tomada por Moisés provinha de uma experiência recente do povo de Deus. Este havia superado a pouco uma ameaça de destruição proveniente dos amalecitas. Num momento de vida ou morte, Moisés estava no monte com os braços levantados em oração! Os outros lutavam com Amalec e ele lutava com Deus. Mas foi ele quem decidiu vitória do seu povo (cf Ex 17,8-16). Amalec – explica Orígenes – é aqui o símbolo das forças hostis que se opõem ao caminho do povo de Deus: Amalec é o demônio, é o mundo, o pecado. Quando este povo reza, é mais forte e rechaça Amalec; quando não reza (quando Moisés, cansado, deixa cair os braços), Amalec é mais forte.

 

São Bernardo, no De consideratione, escrito a convite do papa Eugênio III, aplica esta lição à vida do pastor da Igreja. Diz assim: “Não confies muito no grau de oração que agora possuis: ele pode deteriorar-se. Temo que no meio das tuas ocupações que são muitas, não tendo esperança alguma que tenham um fim, tua alma se torne árida. Por isto é mais importante que te subtraias a tais ocupações em tempo, em vez de ser arrastado por elas, aos poucos, para onde não queres ir, isto é, para a dureza do coração. Eis para onde poderiam levar-te estas malditas ocupações, se te entregares totalmente a elas, sem deixar nada para ti. Visto que todos te têm à disposição, sê também tu um dos que dispõem de ti. Recorda-te, pois, não digo sempre, não digo com freqüência, mas ao menos de vez em quando, de restituir-te a ti mesmo. Usa também tu de ti mesmo, como tantos outros, ou pelo menos depois dos outros”.

 

“A razão demonstra de maneira invencível que, se estivesse em nosso poder fazer o que é conveniente, seria necessário preferir em tudo e por tudo, seria necessário praticar exclusivamente ou antes de tudo, aquela virtude que serve a tudo, isto é, a piedade (cf. 1 Tm 4,8)” (De consideratione, I, 2-6).

 

Portanto, rezar. Mas não basta; Jesus nos ensinou que se pode fazer da oração a própria urdidura, ou o pano de fundo contínuo do próprio dia-a-dia. Devemos tender a isso, pois é possível. “Rezar incessantemente” (cf. Lc 18,1; 1 Ts 5,17) – escreve Agostinho – não significa estar continuamente de joelhos ou com os braços levantados. Existe outra oração, aquela interior, e é o teu desejo. Se o teu desejo for contínuo, será contínua também a tua oração. Quem deseja a Deus e o seu repouso, mesmo que cale com a língua, canta e ora com o coração. Quem não ‘deseja’, pode gritar quanto quiser, mas para Deus será como um mudo” (Enarr. Ps 37,14; 86,1).

 

Devemos descobrir e cultivar esta oração de desejo, ou “de coração”. “Desejo” significa tensão habitual a Deus, é desejo de todo o ser, é saudade de Deus. No início talvez sejam mais raros os momentos em que aflora na superfície, mas depois, aos poucos, aumentando em nós o espírito de oração, esta oração “subterrânea” vem à tona com freqüência sempre maior, até invadir todos os espaços disponíveis do dia, até tornar-se, como em Jesus, o pano de fundo de tudo. Como uma espécie de “inconsciente espiritual” que age também sem o nosso consentimento (sem que a nossa mente se dê conta). Também de noite. Quantas almas experimentaram a verdade daquela frase do Cântico dos Cânticos que diz: Durmo, mas meu coração vela! (Ct 5,2); acordando de noite, davam-se conta, com espanto, de que seu coração estava orando.  Quantas almas experimentaram também a verdade do salmista que diz:

 

Quando te recordo no meu leito, passo vigílias meditando em ti; pois foste um socorro para mim, a, à sombra de tuas asas, eu grito de alegria (Sl 63,7-8).

 

A oração contínua, ou de desejo, não deve fazer-nos negligenciar a necessidade vital que temos de um tempo específico e exclusivo para rezar, possivelmente em lugar solitário, como fazia Jesus. Ele nos disse: Quando orares, entra em teu quarto, e, fechada a porta, ora a teu Pai no segredo (Mt 6,6). Sem este tempo exclusivo de oração, é um ilusão aspirar à oração “incessante”, ou do coração.

 

Quando chega este momento estabelecido para colocar-nos em oração, é preciso interromper decididamente as ocupações e os pensamentos de antes. É preciso entrar no próprio castelo interior, levantando as pontes levadiças. “É preciso que coloques uma nuvem de esquecimento entre ti e todas as criaturas”, para estar em condições de entrar “na nuvem do não-conhecimento” que está sobre ti, entre ti e o teu Deus, isto é, para entrar na contemplação. (Cf. Anônimo, Nuvem do não-conhecimento)

 

É difícil, mas devemos esforçar-nos por fazê-lo, do contrário toda a oração ficará enfraquecida e dificilmente conseguirá elevar-se. É aconselhável dedicar os primeiros momentos deste tempo de oração a purificar o próprio Espírito, confessando as próprias culpas e implorando o perdão de Deus, visto que “nada de contaminado” pode unir-se a Deus (cf. Sb 7,25).

 

Uma oração renovada pelo Espírito

 

A de Jesus foi, sem dúvida, uma oração contínua, mas foi sobretudo uma oração espiritual, isto é, feita “no Espírito Santo”. Graças ao Espírito com que rezava, Jesus renovou no íntimo a oração humana. São Paulo recolhe e propõe à Igreja inteira este modelo de oração realizado por Jesus, quando narra aos efésios: Orai incessantemente com toda espécie de oração e de súplicas no Espírito (Ef 6,18). Oração incessante, pois, mas oração “no Espírito”.

 

Jesus não se contenta em com a oração oficial, nas horas estabelecidas, mas reza durante noites inteiras; isto é, não se limita a orar repetindo orações já feitas e reconhecidas, mas cria oração. O Espírito que renova todas as coisas, renova antes de tudo a coisa mais importante de todas que é a oração. Esta oração nova, livre como é livre o falar do filho com o seu pai (mas de uma liberdade toda interior e não “carnal”), não destrói a oração litúrgica oficial, antes a vivifica, introduzindo nela “Espírito de Vida”: Vem a hora, e já chegou em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em Espírito e verdade (Jo 4,23).

 

O segredo da renovação da oração, como o descobrimos na vida de Jesus, é pois o Espírito Santo: é aquele sopro poderoso que pode devolver a vida à nossa oração árida, como a deu aos ossos secos de Israel (cf. Ez 37,1ss). Por isso devemos fazer penetrar este sopro novo na nossa oração pessoal e litúrgica; devemos “espiritualizar” a nossa oração. Espiritualizar a própria oração significa fazer com que em nós esteja sempre mais o Espírito e sejamos sempre menos nós a rezar, que seja uma oração sempre menos ativa e sempre mais passiva, sempre menos discursiva e sempre mais contemplativa, até alcançar – se aprouver a Deus – aquela “oração de quietude” em que se coloca simplesmente o próprio coração ao lado do coração de Cristo e se grita com ele: Abba, Pai!

 

Neste caminho de espiritualização, parte-se da oração-diálogo. Há oração-diálogo quando nós e Deus falamos alternadamente: um fala e outro escuta, depois um escuta e o outro fala. Da oração-diálogo passa-se à oração-dueto; dá-se o dueto quando duas pessoas falam e cantam juntas, em uníssono. Uma oração-dueto é, por exemplo, quando no Apocalipse, o Espírito e a Esposa dizem (a Jesus): “Vem!” (Ap 22,17).

 

Mas há uma oração ainda mais espiritual que podemos chamar de oração-monólogo; esta oração se verifica quando, fazendo a experiência de que não sabemos, na verdade, o que nos convém pedir, numa determinada oração, deixamos que o Espírito reze em nós. Ele é o único que intercede pelos crentes segundo os desígnios de Deus (Rm 8,27), sendo o único que os conhece. Esta oração é praticamente infalível, porque nela se pede precisamente aquilo que o Pai deseja dar em primeiro lugar. Mas é uma oração que não se pode ensinar externamente, com palavras; somente a “unção” interior (cf. 1 Jo 2,20.27) pode fazê-la experimentar. Nela a nossa contribuição se limita, primeiro, a desejá-la, repetindo com freqüência, com simplicidade: “Espírito Santo, intercedei por nós segundo os desígnios de Deus!”, e, depois, a dizer: “Sim, Amém!” Um “sim” no vazio: “Digo sim, ó Pai, às coisas que o Espírito te pediu por mim! Digo: amém! à sua oração”.

 

Estas três formas de oração não devem necessariamente suceder-se, uma à outra,na vida, mas podem-se entrelaçar no mesmo tempo e no mesmo dia, dependendo das disposições de ânimo e do impulso e da graça.

 

Tal oração “no Espírito” deve servir para renovar na Igreja e em cada um de nós sobretudo uma coisa: o lugar da oração com relação à ação (e, por ação, entendo aqui qualquer outra coisa que não seja oração). A novidade é esta. É preciso passar de uma justaposição, a uma subordinação.

 

A justaposição é, pois, quando antes se reza e depois se trabalha, se age. A subordinação, ao contrário, é quando antes se reza e depois se faz o que está imerso na oração! Os apóstolos e os santos oravam para saber o que fazer, ou simplesmente antes de fazer alguma coisa. É necessária uma conversão profunda. Se a pessoa verdadeiramente crê que Deus governa a Igreja com o seu Espírito, e que este responde quando é invocado, então ela levará muito a sério a oração que precede um encontro, uma sessão de comissão; é preciso não ter pressa para passar às coisas; mais ainda, não se passa às coisas se não se tem alguma resposta através da Bíblia, uma inspiração, uma palavra profética. Quanto maior o tempo que se dedica à oração, a propósito de um problema, tanto maior será depois o tempo necessário para resolvê-lo.

 

                      Para Jesus, rezar e agir não eram duas coisas separadas; de noite com freqüência rezava ao Pai e depois, chegado o dia, realizava o que tinha decidido na oração: escolhia os Doze, encaminhava-os para Jerusalém etc.

Também aqui, é necessário “restituir o poder a Deus”: o poder de decidir, a iniciativa, a liberdade de intervir em qualquer momento da vida da sua Igreja. É preciso coloca a confiança em Deus, não em nós mesmos. Somos impulsionados pelo vento do “alto” que é aproveitado na “vela” da oração.

 

“Ó dulcíssimo amor, viste a necessidade da santa Igreja e lhe proporcionaste o remédio de que tinha necessidade; este remédio é a oração dos teus servos, com os quais queres que se faça um muro para sustentar o muro da santa Igreja. São aqueles servos aos quais o teu Espírito infunde desejos ardentes para a reforma da própria Igreja (Oraç. VII)”.

 

Resumido por Edilma Saboia, do Livro “O Espírito Santo na Vida de Jesus” do Frei Raniero Cantalamessa


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Movimento Católico de Evangelização para reavivar e desenvolver a vida cristã-batismal na perspectiva do seguimento de Jesus Cristo.


 

Meditar sobre a necessidade da oração na nossa caminhada discipular é abrir espaço para perceber a presença do Verbo encarnado na própria experiência humana. Assim, encontramos no evangelho dois Jesus: um Jesus “público” que expulsa os demônios, que prega o Reino, que realiza milagres e trava controvérsias, e um Jesus “íntimo” e quase oculto nas entrelinhas do evangelho. Este último é o Jesus que reza, que suplica, deixa-se guiar pelo Espírito Santo e que se coloca disponível ao cumprimento da vontade do Pai.

 

Lancemos o olhar sobre o evangelho segundo Lucas que é o mais atento em captar Jesus imerso em oração.

 

Jesus que reza

Comecemos precisamente com o batismo de Jesus. Lucas escreve: Enquanto Jesus, depois de receber também ele o batismo, estava em oração, o céu se abriu e sobre ele desceu o Espírito Santo. O mistério da unção está ligado, na sua própria raiz, à oração (Lc 3,21-22). Dir-se-ia que, para Lucas, foi a oração de Jesus que abriu os céus e fez descer o Espírito Santo. O mistério da unção está ligado, na sua raiz, à oração.

 

Muita gente acorria para ouvi-lo e ficar curada das suas doenças. Mas ele se retirava para os lugares isolados, querendo rezar (5, 16-16). Aquele “mas” adversativo é muito eloqüente; cria um contraste singular entre as multidões que se comprimem e a decisão de Jesus de não deixar-se arrastar pelas multidões, de não renunciar ao seu diálogo com o Pai.

 

Em outra ocasião, Jesus foi rezar no monte e passou a noite em oração. Quando amanheceu chamou a si os discípulos e escolheu doze (Lc 6,12-13). Como se Jesus, de dia, não fizesse outra coisa senão pôr em prática o que de noite havia visto em oração.

 

Também na transfiguração, como o batismo, é para Lucas um mistério da oração de Jesus. Jesus não subiu ao monte para ser transfigurado: esta foi a surpresa do Espírito que o havia impelido, não a intenção de Jesus, ao menos da consciência humana de Jesus. Jesus foi ao monte “orar” e “enquanto orava” o seu rosto mudou de aspecto e se transfigurou (Lc 9,28-29). Quando Jesus, depois do batismo, “se dirigiu ao deserto”: não foi para ser tentado; esta, mais uma vez, era a intenção do Espírito Santo que o havia impelido para lá, não de Jesus. Jesus foi para o deserto orar e jejuar.

 

O que Jesus rezava, como se transformava seu rosto e todo o seu ser quando se punha em oração, é expresso também aqui em meia-linha do texto. Certo dia, Jesus orava; ao vê-lo orar, os discípulos que estão em torno dele descobrem o que é oração, dão-se conta de que eles na realidade nunca rezaram e dizem: Senhor, ensina-nos a rezar (Lc 11,1). Nasce assim o pai-nosso que é como que um eco vivo da oração de Jesus transmitido aos discípulos.

 

O último respiradouro sobre Jesus que reza é aquele que ilumina, no evangelho de Lucas, a cena do Getsêmani: Ajoelhando-se, orava (Lc 22,41).

 

A tradição evangélica preocupou-se apenas em transmitir as notícias sobre a oração pessoal de Jesus; mas tudo faz pensar que houvesse também, no dia-a-dia de Jesus, a oração comum a todo piedoso israelita, prevista nas três horas estabelecidas: ao levantar do sol, depois do meio-dia durante o sacrifício no templo, e de noite, antes de adormecer (J. Jeremias).

 

Se a tudo isto acrescentarmos os trinta anos de silêncio, de trabalho e de oração de Nazaré, a imagem global de Jesus é aquela de um contemplativo que de vez em quando passa à ação, mais que a de um homem de ação que de vez em quando se concede espaços de contemplação.

 

Portanto, a oração foi uma espécie de pano de fundo ininterrupto, como o contexto contínuo da vida de Jesus no qual todo mais está mergulhado. Podemos aplicar à oração de Jesus o que diz Péguy sobre a noite: “A noite é o lugar, a noite é o ser no qual se mergulha, do qual alguém se nutre, se cria, se faz. No qual faz o seu ser. A noite é o lugar, a noite é o ser no qual se repousa, no qual a gente se retira e se recolhe. A noite é que é contínua... e os dias são descontínuos, pois furam e rompem a noite. E não são de forma algumas noites que interrompem o dia. A noite que faz uma borda augusta às agitações do dia... Contínua é a noite, nela o ser se retempera, é a noite que forma um longo tecido contínuo...” (O pórtico do mistério da segunda virtude).

 

Como na encarnação, a palavra sai do silêncio eterno de comunhão com o Pai, assim na pregação de Jesus a palavra brota do silêncio de sua oração e de seu colóquio com o Pai.

 

O Espírito Santo, alma da oração de Jesus

 

Agora iremos descobrir o conteúdo da oração de Jesus. Notou-se uma coisa surpreendente: todas as orações de Jesus atestadas nos quatro evangelhos – com a única exceção do grito lançado na cruz, mas que é uma citação do salmo 22,2 – têm em comum o uso da invocação “Pai”, e precisamente na forma hebraica Abba.

 

Esta palavra não aparece nas orações judaicas (J. Jeremias). Ela encerra toda a impressionante novidade da oração de Jesus, novidade que deriva, por sua vez, do fato novo no mundo que é o próprio Filho de Deus que está a rezar.

 

Foi o Espírito Santo que suscitou no coração de Jesus aquele grito: Abba! Naquele mesmo instante, Jesus exultou no Espírito Santo e disse: Eu te louvo, Pai (Abba), Senhor do céu e da terra... (Lc 10, 21). Paulo confirma esta descoberta; com efeito, ele confirma que quando nós dizemos Abba!, na realidade é o Espírito de Jesus que o diz em nós, continuando nos crentes a oração de Jesus: A prova de que sois filhos de Deus, é que Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho que clama: ‘Abba-Papai’! (Gl 4,6).  O Espírito Santo, por si mesmo, não pode dirigir-se ao Pai, gritando Abba!, pode fazer isto enquanto se tornou, graças a encarnação, o Espírito de Jesus, que é o Filho de Deus. Toda vez que ouvimos este grito filial, devemos pensar que o Espírito Santo está em ação: tanto em Jesus como na Igreja: “Sem ele, quem quer que grite, grita Abba no vazio” (Agostinho, Sermo 71,18: PL38,461).

 

Mas o Espírito Santo não suscita em Jesus apenas orações de “exultação’. Paulo diz que o Espírito intercede pelos cristãos “com gemidos inenarráveis” (Rm 8,26); foi “no Espírito Santo” que Jesus, nos dias de sua vida terrena, ofereceu orações e súplicas com fortes gritos e lágrimas (Hb 5,7). Em outras palavras, o Espírito Santo estava com Jesus no Getsêmani sustentando-o na hora suprema da oferenda da sua vida. “Cristo com um Espírito eterno (isto é, com o Espírito Santo) ofereceu-se a si mesmo sem mancha a Deus para purificar a nossa consciência das obras da morte” (Hb 9, 14).

 

Nesta oração e oferenda sacrificial de si ao Pai aparece o terceiro aspecto da unção recebida por Jesus mediante o Espírito Santo: a unção sacerdotal. Cristo não se atribuiu a glória de sumo sacerdote,mas conferiu-lha aquele que (na encarnação e no batismo!) lhe disse: “Tu és meu filho” (Hb 5,5; cf. Lc 3,22). 


Continua no próximo artigo!


Resumido por Edilma Saboia, do Livro “O Espírito Santo na Vida de Jesus” do Frei Raniero Cantalamessa