Recados

4 - Espinho na carne

 Quando Deus e a medicina não curam, o homem é tentado a virar as costas para Ele, como se Ele não existisse ou não ligasse para nós. Por isso trouxemos este assunto à tona, para termos um justo equilíbrio espiritual nos momentos dolorosos da nossa vida.

Deus sempre perdoa a culpa do pecado quando há arrependimento e fé em Jesus Salvador, mas nem sempre cura as consequências do pecado que são, numa palavra, a morte, o sofrimento, a enfermidade, pois o homem expulso do Paraíso perdeu os dons preternaturais da impassibilidade e da imortalidade.

Deus tem poder para curar todas doenças, porque nada lhe é impossível. Porém, a própria experiência mostra que muitas pessoas de fé ficaram enfermas por longos anos e morreram. Hoje elas estão na glória do céu sem muletas, sem cadeira de rodas, sem lágrimas e sem dor, mas antes fizeram a via-crucis do sofrimento e da morte como qualquer outra criatura sobre a face da terra.

João Batista mandou dois discípulos perguntar a Jesus se o Reino de Deus já ia ser estabelecido completamente com a chegada dele: “És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?” Nessa mesma hora, Jesus curou muitas pessoas de suas doenças, males e espíritos maus, e fez muitos cegos recuperar a vista. Depois respondeu: “Voltem, e contem a João o que vocês viram e ouviram: os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, e a Boa Notícia é anunciada aos pobres!” (Lc 7,18-23) Desta forma, Jesus mostrou que o Reino de Deus já tinha sido inaugurado com a sua Presença, mas este mesmo Reino só seria plenamente realizado nos céus, após a sua segunda vinda. As curas e libertações que ele realizou eram sinais e antegozos do Reino de Deus. Mas só no Reino definitivo é que já não haverá mais morte, nem luto e nem lágrimas de forma completa.

Jesus realizou muitos milagres, mas não curou todos enfermos e nem ressuscitou todos os mortos. São José mesmo, seu querido pai adotivo, morreu bem antes que ele e Nossa Senhora. Fé e santidade foi o que não faltou na Sagrada Família de Nazaré. Mesmo assim Jesus não ressuscitou seu querido José. Isto significa que Jesus curou e continua curando, realizando sinais e prodígios do Reino de Deus, para que as pessoas entendam que o Reino de Deus é o Reino da Vida Eterna e tenham fé, esperança e perseverem até o fim. Mas isto ele realiza quando quer, da forma como quer e quando é para o nosso verdadeiro bem.

Deus é Poderoso e Soberano. Escuta a nossa súplica, mas não é mandado por nós. Tudo concorre para o bem daqueles que o amam. Mas Ele é quem sabe os caminhos da Divina Providência que age na história, direcionando tudo para a plena realização do seu Reino de paz, alegria, justiça e santidade.

O Apóstolo Paulo, um homem santo completamente comprometido com a causa do Reino de Deus, que evangelizou no poder do Espírito Santo com muitos milagres, curas e libertações, tinha plena consciência de que tudo aqui é passageiro, inclusive a dor, o sofrimento e a morte, e combatia o bom combate na certeza de que haveria de receber do Justo Juiz a coroa da vida eterna (1Tm 4,8).

 

Rm 8,18 Penso que os sofrimentos do momento presente não se comparam com a glória futura que deverá ser revelada em nós. 19 A própria criação espera com impaciência a manifestação dos filhos de Deus. 20 Entregue ao poder do nada - não por sua própria vontade, mas por vontade daquele que a submeteu -, a criação abriga a esperança, 21 pois ela também será liberta da escravidão da corrupção, para participar da liberdade e da glória dos filhos de Deus. 22 Sabemos que a criação toda geme e sofre dores de parto até agora. 23 E não somente ela, mas também nós, que possuímos os primeiros frutos do Espírito, gememos no íntimo, esperando a adoção, a libertação para o nosso corpo. 24 Na esperança, nós já fomos salvos. Ver o que se espera já não é esperar: como se pode esperar o que já se vê? 28 Sabemos que todas as coisas concorrem para o bem dos que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o projeto dele. 29 Aqueles que Deus antecipadamente conheceu, também os predestinou a serem conformes à imagem do seu Filho, para que este seja o primogênito entre muitos irmãos. 30 E aqueles que Deus predestinou, também os chamou. E aos que chamou, também os tornou justos. E aos que tornou justos, também os glorificou. 31 O que nos resta dizer? Se Deus está a nosso favor, quem estará contra nós? 32 Ele não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós. Como não nos dará também todas as coisas junto com o seu Filho? 33 Quem acusará os escolhidos de Deus? É Deus quem torna justo! 34 Quem condenará? Jesus Cristo? Ele que morreu, ou melhor, que ressuscitou, que está à direita de Deus e intercede por nós? 35 Quem nos poderá separar do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada? 36 Como diz a Escritura: “Por tua causa somos postos à morte o dia todo, somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro.” 37 Mas, em todas essas coisas somos mais do que vencedores por meio daquele que nos amou. 38 Estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem os poderes 39 nem as forças das alturas ou das profundidades, nem qualquer outra criatura, nada nos poderá separar do amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo, nosso Senhor.

 

O cume da fé é se entregar e obedecer a vontade de Deus, inclusive na hora da enfermidade e da morte. Nesses momentos devemos rezar, adorar e nos entregarmos à vontade de Deus, pois ela é sempre a melhor para a nossa verdadeira felicidade. Isto gera um justo equilíbrio na nossa vida espiritual. De um lado não nos tornamos, por demais, frios racionalistas que não erguem as mãos e suplicam a Deus por cura e libertação, como se ele não pudesse realizar milagres ou não olhasse para nós. Mas de outro lado também não nos culpamos quando não somos curados, como se a falta da cura é por falta de fé. Sem este justo equilíbrio espiritual ficamos revoltados contra Deus e abandonamos a fé na hora da dor e da morte. Por isso estamos tocando nesse assunto com pés no chão.

Devemos ser humildes. Deus sabe o que faz e nós não sabemos o que dizemos. Mais uma vez lembramos do Apóstolo Paulo. Por sua intercessão e evangelização Deus salvou, curou e libertou milhares de pessoas. Mas ele mesmo tinha um “espinho na carne” que lhe causava muita dor e sofrimento, ao ponto de parecer com um anjo de Satanás para o espancar, a fim de que não inchasse de orgulho.

Por três vezes ele pediu ao Senhor que o curasse desse “espinho na carne”. Deus, porém, disse para ele: “Para você basta a minha graça, pois é na fraqueza que a força manifesta todo o seu poder.” Então ele compreendeu o sentido do sofrimento e de que nem sempre Deus cura de todas enfermidades. Passou a viver com aquele “espinho na carne” que o ajudava a ser humilde, sem ficar se lamentando na presença dos irmãos e menos ainda blasfemando contra Deus. E dizia: “É por isso que eu me alegro nas fraquezas, humilhações, necessidades, perseguições e angústias, por causa de Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte!” (2Cor 12,7-10)

Deus pode tirar coisas boas até mesmo dos males que nos acontecem porque grande é o seu poder e infinita a sua sabedoria. E mesmo quando ele não cura, ele dá a graça de ser feliz e crescer “nas fraquezas, humilhações, necessidades, perseguições e angústias, por causa de Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte!” Um fiel discípulo de Jesus me disse que começou a enxergar depois que ficou cego e outro que passou a entender o verdadeiro sentido da vida depois que caiu enfermo. Todos nós também temos experiência de como crescemos e mudamos para melhor nos momentos de dificuldades e como a nossa visão se alargou na hora das humilhações, necessidades, perseguições e angústias. Deus sabe o que faz e a sua vontade sempre é a melhor para a nossa verdadeira felicidade.

Acolher a vontade de Deus implica se abandonar nas mãos de Deus com todas as nossas preocupações, porque é ele quem cuida de nós. A espiritualidade do abandonar-se nas mãos de Deus é necessária para viver com sentido e com paz. Depois da cruz sempre vem a ressurreição, depois deste tempo de peregrinação todos iremos para a glória do Reino de Deus aonde não haverá nem dor, sem sofrimento, nem luto e nem morte.

Em tudo isso que estamos falando não fique a ideia errada de que Deus é a fonte do mal, de que ele goste de nos ver sofrendo ou que devamos agradecer a ele pela desgraça, pela dor e a morte. Porém, esta é a realidade da vida, todos passamos por momentos de dificuldades e mesmo que Deus possa tudo, ele não resolve tudo, pois não somos fantoches em suas mãos e ele mesmo deve respeitar a nossa liberdade e as leis da natureza. Se não for assim, ele mesmo vai contra tudo que criou e contra o dom da nossa liberdade. Porém, o certo é que ele nos dá a graça de irmos adiante apesar dos pesares. Sim, em Jesus todos já somos mais que vencedores! (Rm 8,37) 

Na hora da dor e do sofrimento devemos orar a Deus por cura e libertação. Orar mesmo, pois esta oração lhe é muito agradável. Mas quando a cura não vem, devemos fazer o mesmo que Paulo fez e nos abandonarmos nas mãos de Deus e à sua vontade. Repito: Deus pode tudo e Deus sabe o que faz. A sua vontade sempre é a melhor para a nossa verdadeira felicidade. Esta é verdadeira fé cheia de humildade e obediência. Pois os sofrimentos do momento presente não se comparam com a glória futura que deverá ser revelada em nós. Todas as coisas concorrem para o bem dos que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o projeto dele. E nada poderá nos separar do amor de Deus revelado em Jesus Crucificado, nem mesmo a morte!

Concluímos com São Paulo professando a nossa fé no Deus da Vida Eterna que começa neste mundo e se prolonga por toda eternidade:

 

Fl 1,19 De fato, sei que tudo isso (os sofrimentos e prisões) há de servir para a minha salvação, através das orações de vocês e do Espírito de Jesus Cristo, que me socorre. 20 O que desejo e espero é não fracassar, mas, agora como sempre, manifestar com toda a coragem a glória de Cristo em meu corpo, tanto na vida, como na morte. 21 Pois para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro. 22 Mas, se eu ainda continuar vivendo, poderei fazer algum trabalho útil. Por isso é que não sei bem o que escolher. 23 Fico na indecisão: meu desejo é partir dessa vida e estar com Cristo, e isso é muito melhor. 24 No entanto, por causa de vocês, é mais necessário que eu continue a viver. 25 Convencido disso, sei que vou ficar com vocês. Sim, vou ficar com todos vocês, para ajudá-los a progredir e a ter alegria na fé. 26 Assim, quando eu voltar para junto de vocês, o orgulho de vocês em Jesus Cristo irá aumentar por causa de mim.

 

MODP Romanos 8,18-39