Recados

1 - Deus quer curar Caim


Meditando o evangelho vamos percebendo que o amor de Deus, plenamente revelado e concedido em Jesus de Nazaré, é uma força de salvação que redime do pecado, justifica, santifica e liberta do Maligno. Porém, na sua missão de nos favorecer com a vida em abundância, Jesus continua a sua obra curando a nossa vida interior e ungindo-nos com o Espírito Santo.

A ordem pode ser inversa, pois o caminho de Deus nem sempre corresponde ao nosso caminho. Mas, normalmente, primeiro Jesus nos cura interiormente para depois no ungir. “Vinho novo em odres novos!” (Mt 9,17)

Em toda obra de cura e unção é necessária a livre e consciente participação humana. Deus que nos criou sozinho, já dizia Santo Agostinho, decidiu não nos salvar sozinho.

O paraíso do Éden descrito no Livro das Origens não é tanto um lugar, mas um estado de Graça e Paz. O homem vivia em harmonia com Deus, com a natureza, com os outros e consigo mesmo. Iludido, afastou-se do Onipotente Amor Criador, e se deu mal. O primeiro sinal desse estrago foi o “medo de Deus”. Depois começaram as acusações e desentendimentos entre Adão e Eva. Até os fenômenos da natureza tornaram-se hostis à vida humana.

Os filhos herdaram a concupiscência dos pais. A natureza humana criada boa, agora está ferida. Caim torna-se mesquinho, enfurecido e cabisbaixo. O pecado andava à sua espreita e conseguiu vencê-lo. “Lançou-se contra seu irmão Abel e o matou” (Gn 4,8). Alegando não ter nenhuma responsabilidade de amor para com seu irmão, saiu errante e perdido pelo mundo afora. Todos queriam se vingar e matá-lo. Mas a vingança não cura nem liberta. Apenas perpetua o mal. Só o amor cura!

Do pecado original em diante a corrupção espalhou-se sobre a face da terra.

 

Gn 6 Javé viu que a maldade do homem crescia e que todo projeto do coração humano era sempre mal. 6 Então javé se arrependeu de ter feito o homem sobre a terra, e seu coração ficou magoado.

 

O que significa “arrependeu de ter feito o homem”? A miséria do homem, causada por ele mesmo a partir de dentro de seu coração doente, entristece a Deus. Mas o Onipotente Amor Criador não desistiu. O que fora criado à sua imagem e semelhança agora precisava de restauração.

De aliança em aliança, Deus foi conduzindo a história. A primeira aliança feita com Noé ficou sinalizada no arco-íris (Gn 9,8-17). A aliança feita com Abraão e Moisés foi representada na circuncisão. Com os Profetas Deus fala de uma aliança escrita pelo Espírito Santo no coração. Por fim, a Nova e Eterna Aliança foi assinada no Sangue do Cordeiro. Jesus reconciliou todas as coisas e estabeleceu a Paz pelo seu sangue derramando na cruz (Cl 1,20). A Cruz é o maior sinal da salvação, pois representa a Nova e Eterna Aliança. Ela é loucura para os sábios do mundo, mas para nós, ela é poder e sabedoria de Deus.

Estabelecer a paz significa reconduzir o homem ao estado harmonioso de graça e paz, reconduzir ao paraíso. Por isso Jesus incluiu na sua missão a cura de todas as doenças e enfermidades, sobretudo as moléstias interiores. Vendo as multidões, ele tinha compaixão porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor (Mt 9,35-36).

Por experiência sabemos que mais do que por problemas exteriores, a angústia, a tristeza, o vazio existencial, a desintegração do ser, são originadas dentro do interior do homem cansado e abatido, nas lembranças negativas da sua mente e nas feridas do seu coração. São doenças que não enxergarmos, mais são tão reais como as que vemos no corpo, e tornam-se causa de muitos outros males como instinto suicida, violência, dependência dos vícios, ciúmes, rancores, etc.

Jesus cura as doenças interiores para devolver a saúde do homem por inteiro. Sabemos que os problemas emocionais também podem se transformar em doenças físicas, além de serem bastante prejudiciais para a vida espiritual e para a vida social em geral. Numa palavra, o homem doente por dentro não consegue viver de bem com a vida, nem com a sua vida e nem com a vida dos outros. Daí os ciúmes, invejas, brigas e desentendimentos.

Realmente a obra de Deus ficaria pela metade e inacabada, se apenas os pecados fossem perdoados e o corpo curado. As doenças interiores sempre geram novas situações de pecado, são altamente suscetíveis às tentações do inimigo e influências negativas do mundo.

Os protótipos do homem doente interiormente são Caim e Judas Iscariotes. Caim vivia enfurecido e cabisbaixo. Infelizmente, Caim pode ser eu ou você. Todos nós, uns mais, outros menos, fomos feridos por muitos e diferentes atos de desamor desde quando viemos a este mundo. Mas Jesus veio procurar Caim como o pastor busca a ovelha perdida. Ao encontrá-lo, alegra-se, coloca-o nos ombros e trata as suas feridas (Lc 15,3-7). Ele é manso e humilde de coração. Em Jesus Caim reencontra a paz e volta para a casa do Pai.

A cura interior está relacionada não só com a vida aqui na terra, mas também com a nossa própria salvação por toda eternidade. De fato, o pecado, as lembranças e os sentimentos negativos perseguiam Caim. Ficavam como fera acuada, espreitando-o. Mas ele não estava condenado a ser uma eterna vítima de tudo isso, pois podia dominá-los, acolhendo a orientação de Deus e abrindo-se para o seu amor restaurador (Gn 3,7). Porém, Caim não se abriu. Ele não era só doente emocionalmente, mas soberbo espiritualmente, o que é muito pior.

 

Eclo 3,26 Um coração obstinado acumula sofrimentos, e o pecador vai somando pecado a pecado. 27 A desgraça não cura o soberbo, porque a planta do mal criou raízes nele.

 

Isto significa que nunca podemos dizer que nós ou os outros não temos culpa das maldades que fazemos porque, se as fizemos, é porque antes já fomos maltratados por outros. Deus sabe dos sofrimentos, humilhações e desamores que sofremos. Mas vem em nosso socorro justamente com a porção sagrada do seu amor para que superemos tudo isso e vivamos vida nova. Mais uma vez, cabe a nós acolhermos ou não.