Recados

3 - Ser santo é ser humano


No Evangelho segundo Mateus, após ensinar sobre as bem-aventuranças, a importância do testemunho e o verdadeiro sentido da observância da Lei de Deus, Jesus conclui a primeira parte do Sermão da Montanha com esta frase lapidar: “Portanto, sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês que está no céu” (Mt 5,48). É o mesmo que dizer: “Sede santos como Deus é santo!” (Lv 19,2) Desta forma, o grande chamado de Deus para cada discípulo de Jesus é à santidade:

 

“Visto que é Santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em todo o vosso agir!” (1Pd 1,15)

 

Ao meditarmos o projeto de Deus percebemos que todo ser humano deve ser santo como Ele é santo, e que ser santo é ser humano. Ou seja, Deus é Santo como Deus, o homem deve ser santo como homem. Pois Deus criou o homem bom, aliás, muito bom. Ser santo é viver esta bondade original que saiu com o selo de qualidade das mãos do Criador.

Tudo que é verdadeiramente bom deve ser almejado e vivenciado pela criatura humana. Deste modo, ser santo é ser bom.

Às vezes temos uma ideia errada de santidade que atrapalha muito a nossa caminhada cristã. É como se para sermos santos devêssemos ser anjos. Não. Devemos ser homens e então seremos santos. Todo santo do céu é um homem santo que viveu na terra, peregrinou, discerniu a vontade de Deus, cumpriu com a sua missão, acolheu o Espírito Santo e viveu conforme este Espírito o iluminava e impulsionava.

Quando pensamos que para ser santos devemos ser anjos, esquecendo ou negando a nossa humanidade com tudo o que ela tem de bom, então perdemo-nos em meio às ilusões, ingenuidades e idealismos. Perdemos tempo procurando fazer o que é impossível a nós e ao que não corresponde à vontade de Deus para nós, e deixamos de dar passos concretos no Caminho que é Cristo, nosso Salvador, Mestre e Senhor.

Para sermos santos não precisamos ser anjos, como se pudéssemos ser desencarnados da história ou assexuados. Devemos viver a nossa humanidade em todas as suas dimensões corpórea, psíquica, afetiva, sexual, intelectual, espiritual, social. Toda essa vivência deve ser no rumo da eternidade, mas só é possível no transcurso da história, ou seja, aqui e agora.

Fomos salvos por Jesus e ungidos pelo seu Espírito. Por isso, se fizermos a opção fundamental de ser santo como Deus é Santo, nada poderá nos impedir. Jesus nos deu o exemplo a seguir. Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. O seu Espírito é a nossa força e esperança!

Ser santo não é querer ser deus. Aliás, esta foi a grande tentação do Maligno para Adão e Eva: “Se comerdes da fruta sereis como deuses”. Deus é Santo como Deus, o homem deve ser santo como homem, portanto, em comunhão submissa com o seu Criador.

Esta busca de querer ser deus é na verdade querer viver sem Deus, negando-lhe a humilde obediência e a fervorosa gratidão. Esta tentação do Maligno, “sereis como deuses”, se for praticada, gera no homem o orgulho. Daí vêm a ignorância, a autossuficiência, o secularismo e todas as formas de ocultismos. Nós sabemos aonde o homem chega sozinho: ao fundo do poço, ao inferno.

O Espírito Santo santifica-nos ao mesmo tempo que nos humaniza. Santificação é humanização, de modo que quanto mais humanos formos mais santo seremos. A santidade é obra da Graça restaurando nossa bondade original, nossa “imagem e semelhança com Deus”.

 

MOPD Primeira Carta de São Pedro 1,13-21