Recados

4 - Por que Jesus morreu?


 

Vamos mergulhar no mistério da redenção da humanidade mediante a Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por ser mistério, é muito profundo. Quanto mais conhecemos, mais temos para conhecer.

Ao morrer crucificado, o Filho de Deus sofreu a morte da forma mais humilhante e dolorosa que havia naquele tempo. Torturado e coroado de espinhos, padeceu na cruz até não resistir mais... Então deu um forte grito: “Pai, nas tuas mãos eu entrego o meu espírito”. Dizendo isso, expirou.” (Lc 23,46)

A morte de cruz foi o cume de toda a sua vida oferecida ao Pai pela salvação da humanidade. “Amando os seus, amou-os até o fim!” O Senhor Jesus bebeu o cálice amargo da nossa redenção e sofreu no seu corpo as piores maldades que o pecado do homem já foi capaz de inventar.

 

1Pd 2,22 Ele não cometeu nenhum pecado e mentira nenhuma foi encontrada em sua boca. 23 Quando insultado, não revidava; ao sofrer, não ameaçava. Antes, depositava sua causa nas mãos daquele que julga com justiça. 24 Sobre o madeiro levou os nossos pecados em seu próprio corpo, a fim de que nós, mortos para nossos pecados, vivêssemos para a justiça. Através dos ferimentos dele é que vocês foram curados, 25 pois estavam desgarrados como ovelhas, mas agora retornaram ao seu Pastor e Guardião.

 

- Mas, por que Jesus morreu?

 

- Deus poderia salvar o homem de outra forma que não fosse pelo sacrifício cruento da Cruz?

 

Quando Adão e Eva pecaram, toda humanidade se tornou culpada diante de Deus.

 

Rm 3,11 Não há homem justo, não há um sequer. 12 Todos se desviaram, e juntos se corromperam; não há quem faça o bem, não há um sequer. 23 Todos pecaram e estão privados da glória de Deus.

 

Rm 5,19 Pela desobediência de um só homem, todos se tornaram pecadores.

 

A virtude da justiça consiste em dar ao outro aquilo que lhe é devido. Ela é necessária para manter a ordem e a paz. Por isso há um senso de justiça na criatura humana que pede, por exemplo, que o assassino seja punido segundo as leis civis. O senso de justiça emerge dentro de nós como algo constitutivo do nosso ser, de modo que temos na consciência o princípio ético universal de que devemos ser justos e que a justiça faz bem e é necessária.

Quando uma mãe castiga o filho, ela está sendo movida pelo senso de justiça e pensando no bem do próprio filho. Justiça nesse sentido é completamente diferente de vingança e de brutalidade. Trata-se de dar ao outro o que lhe é devido, em vista do seu próprio bem ou da humanidade em geral. 

Deus criou o homem num estado de justiça e santidade originais. Concedeu a ele todas as graças e meios para viver feliz na sua companhia. O homem só não poderia ser orgulhoso ao ponto de querer viver sem a sua Graça e sem obedecer a sua Lei. Deus ordenou ao homem: “Você pode comer de todas as árvores do jardim. Mas não pode comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, com certeza você morrerá” (Gn 2,17). Porque no plano do ser, Criador é Criador e criatura é criatura, e não pode ser diferente. Um exemplo simples, mas certeiro: O inventor da máquina de lavar roupas estabeleceu leis para ela funcionar bem. Caso o consumidor faça o contrário do que foi posto por escrito no manual de uso, a máquina “morrerá”, simples assim. O homem preferiu dar ouvidos ao Diabo e não ao seu Criador. Foi ignorante, ingrato e desobediente. Sua natureza foi ferida pelo pecado e o mal entrou na história da humanidade.

 

Rm 5,12 Assim como o pecado entrou no mundo através de um só homem e com o pecado veio a morte, assim também a morte atingiu todos os homens, porque todos pecaram.

 

Deus não tem justiça. Ele é Justiça. “Em Deus o poder e a essência, a vontade e a inteligência, a sabedoria e a justiça são uma só e mesma coisa” (Santo Tomás de Aquino). Por isso, “se lhe formos infiéis, ele permanece fiel, pois não pode renegar a si mesmo” (2Tm 2,13). Diante do Tribunal da Justiça Divina o homem pecador tornou-se um criminoso que merece ser condenado e pagar pelo seu crime. Matar alguém é uma grande ofensa contra o Amor e a Verdade. Mas um filho matar a própria mãe, a ofensa é muito maior ainda. De igual forma, o pecado cometido contra Deus foi uma ofensa enorme, gerou uma culpa infinita, tão grande que homem algum sobre a face da terra conseguiria pagar a pena devida ao pecado e reparar a ofensa feita a Deus.

No Antigo Testamento o homem deveria cumprir toda Lei de Moisés e oferecer sacrifícios expiatórios de animais para ser salvo. Porém, provou-se ao longo dos séculos que o homem nunca conseguiu cumprir a Lei na sua totalidade, de modo que, em vez de salvação, a Lei lembrava ao homem a sua condenação. Incapaz de cumprir toda Lei, e porque os sacrifícios de animais eram insuficientes, por Justiça, o homem, todo homem estava condenado ao inferno, à morte eterna. Só Deus poderia pagar a pena de um pecado tão grande contra o próprio Deus.

Foi então que a Misericórdia de Deus entrou em ação. Uma vez que é impossível eliminar os pecados com o sangue de touros e bodes, o Filho de Deus disse ao Pai no seio da Santíssima Trindade:

 

Hb 10,5 Tu não quiseste sacrifício e oferta. Em vez disso, tu me deste um corpo. 6 Holocaustos e sacrifícios não são do teu agrado. 7 Por isso eu disse: Eis-me aqui, ó Deus - no rolo do livro está escrito a meu respeito - para fazer a tua vontade.

 

Hb 10,8 Primeiro diz: “Não queres e não te agradam sacrifícios e ofertas, holocaustos e sacrifícios pelo pecado.” Trata-se de coisas que são oferecidas segundo a Lei. 9 Depois acrescenta: “Eis-me aqui para fazer a tua vontade”. Desse modo, Cristo suprime o primeiro culto para estabelecer o segundo. 10 É por causa dessa vontade que nós fomos santificados pela oferta do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez por todas. 11 Cada sumo sacerdote se apresenta diariamente para celebrar o culto e oferecer muitas vezes os mesmos sacrifícios, que são incapazes de eliminar os pecados. 12 Jesus, porém, ofereceu um só sacrifício pelos pecados e se assentou à direita de Deus.

 

Deus enviou o seu Filho Amado para pagar por nossos pecados, pois o homem não conseguia pagar através do cumprimento da Lei de Moisés e dos sacrifícios expiatórios de animais. Assim, Deus não caiu em contradição, a sua justiça foi satisfeita e nos redimiu. Jesus se fez homem para salvar o homem, dando a sua vida no seu lugar. Ele é o Cordeiro de Deus que tira o pecado mundo. 

Por ser Justo e Fiel, Deus não faz só o que é certo, mas o que é melhor. Em Jesus Cristo a justiça de Deus é misericordiosa. Por justiça o pecador deveria ser condenado. Mas Jesus foi misericordioso, pagou pelo pecador e o justificou e absolveu da pena devida ao pecado. Assim ele satisfez a justiça de Deus, que “não pode renegar a si mesmo” (2Tm 2,13).

Jesus é, ao mesmo tempo, a justiça e a misericórdia de Deus na nossa vida. O Catecismo da Igreja ensina:

 

Ao partilhar, no seu coração humano, o amor do Pai para com os homens, Jesus “amou-os até ao fim” (Jo 13, 1), “pois não há maior amor do que dar a vida por aqueles que se ama” (Jo 15, 13). Assim, no sofrimento e na morte, a sua humanidade tornou-se instrumento livre e perfeito do seu amor divino, que quer a salvação dos homens (470).

 

Com efeito, Ele aceitou livremente a sua paixão e morte por amor do Pai e dos homens a quem o Pai quer salvar: “Ninguém Me tira a vida. Sou Eu que a dou espontaneamente” (Jo 10, 18). Daí, a liberdade soberana do Filho de Deus, quando Ele próprio vai ao encontro da morte (471).

 

O resultado do pecado é o sofrimento tanto para o pecador como para os seus semelhantes. Como Jesus é Santo, Justo e Inocente – “nenhum pecado e mentira nenhuma foi encontrada em sua boca (1Pd 2,22) logo, os sofrimentos que padeceu não foram resultados dos seus próprios erros, mas consequência dos pecados de toda a humanidade (Hb 12,3).

Deus sabia que quando enviasse o seu Filho para salvar a humanidade, ele iria sofrer todos ataques do ódio e do mal. Por isso, 700 anos antes de Jesus vir ao mundo o profeta viu o Servo Sofredor todo desfigurado e flagelado, “transpassado por causa de nossas revoltas, esmagado por nossos crimes”:

 

Is 53,1 Quem acreditou em nossa mensagem? Para quem foi mostrado o braço de Javé? 2 Ele cresceu como broto na presença de Javé, como raiz em terra seca. Ele não tinha aparência nem beleza para atrair o nosso olhar, nem simpatia para que pudéssemos apreciá-lo. 3 Desprezado e rejeitado pelos homens, homem do sofrimento e experimentado na dor; como indivíduo de quem a gente esconde o rosto, ele era desprezado e nem tomamos conhecimento dele. 4 Todavia, eram as nossas doenças que ele carregava, eram as nossas dores que ele levava em suas costas. E nós achávamos que ele era um homem castigado, um homem ferido por Deus e humilhado. 5 Mas ele estava sendo transpassado por causa de nossas revoltas, esmagado por nossos crimes. Caiu sobre ele o castigo que nos deixaria quites; e por suas feridas é que veio a cura para nós. 6 Todos nós estávamos perdidos como ovelhas, cada qual se desviava pelo seu próprio caminho, e Javé fez cair sobre ele os crimes de todos nós. 7 Foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; tal como cordeiro, ele foi levado para o matadouro; como ovelha muda diante do tosquiador, ele não abriu a boca. 8 Foi preso, julgado injustamente; e quem se preocupou com a vida dele? Pois foi cortado da terra dos vivos e ferido de morte por causa da revolta do meu povo. 9 A sepultura dele foi colocada junto com a dos ímpios, e seu túmulo junto com o dos ricos, embora nunca tivesse cometido injustiça e nunca a mentira estivesse em sua boca. 10 No entanto, Javé queria esmagá-lo com o sofrimento: se ele entrega a sua vida em reparação pelos pecados, então conhecerá os seus descendentes, prolongará a sua existência e, por meio dele, o projeto de Javé triunfará. 11 Pelas amarguras suportadas, ele verá a luz e ficará saciado. Pelo seu conhecimento, o meu servo justo devolverá a muitos a verdadeira justiça, pois carregou o crime deles. 12 Por isso eu lhe darei multidões como propriedade, e com os poderosos repartirá o despojo: porque entregou seu pescoço à morte e foi contado entre os pecadores, ele carregou os pecados de muitos e intercedeu pelos pecadores.

 

Esta profecia do Servo Sofredor nos ajuda a mergulhar no mistério profundo do sofrimento redentor de Jesus.

 

Is 53,5 Ele estava sendo transpassado por causa de nossas revoltas, esmagado por nossos crimes. Caiu sobre ele o castigo que nos deixaria quites; e por suas feridas é que veio a cura para nós. 6 Todos nós estávamos perdidos como ovelhas, cada qual se desviava pelo seu próprio caminho, e Javé fez cair sobre ele os crimes de todos nós.

 

Mais do que sofrer as consequências negativas dos pecados que ele mesmo nunca cometeu, Jesus sofreu em si mesmo o pecado da humanidade: orgulho, maldades, violência, ódio etc. Ele carregou os nossos pecados no sentido de que na sua santa humanidade o pecado do homem se fez presente, não por um ato pessoal seu, mais no sentido de que Deus fez cair nele o pecado dos outros, afim de que na sua santa humanidade este mesmo pecado fosse lavado e perdoado. Desta forma, por nós, pela nossa justificação diante de Deus, Jesus se fez maldito na cruz (Gl 3,13), como Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1,29).

 

2Cor 5,21 Aquele que nada tinha a ver com pecado, Deus o fez pecado por causa de nós, a fim de que por meio dele sejamos reabilitados (justificados) por Deus.

 

MOPD Isaías 53,1-12