Recados

4 - O pecado original

Deus é Amor e por amor criou o homem à sua imagem e semelhança. Com corpo material e alma espiritual, o homem vivia feliz no paraíso, participando da vida de Deus, em um estado de liberdade, santidade e justiça originais. “O primeiro homem não só foi criado bom, mas também foi constituído em uma amizade com seu Criador e em tal harmonia consigo mesmo e com a criação que o rodeava que só serão superadas pela glória da nova criação em Cristo” (CIC 374).

 

Gn 2,7 Javé Deus modelou o homem com a argila do solo, soprou-lhe nas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivente. 8 Javé Deus plantou um jardim em Éden, no Oriente, e aí colocou o homem que havia modelado. 9 Javé Deus fez brotar do solo todas as espécies de árvores formosas de ver e boas de comer. Além disso, colocou a árvore da vida no meio do jardim, e também a árvore do conhecimento do bem e do mal. 15 Javé Deus tomou o homem e o colocou no jardim de Éden, para que o cultivasse e guardasse. 16 E Javé Deus ordenou ao homem: “Você pode comer de todas as árvores do jardim. 17 Mas não pode comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, com certeza você morrerá”. 18 Javé Deus disse: “Não é bom que o homem esteja sozinho. Vou fazer para ele uma auxiliar que lhe seja semelhante”. 21 Então Javé Deus fez cair um torpor sobre o homem, e ele dormiu. Tomou então uma costela do homem e no lugar fez crescer carne. 22 Depois, da costela que tinha tirado do homem, Javé Deus modelou uma mulher, e apresentou-a para o homem. 23 Então o homem exclamou: “Esta sim é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque foi tirada do homem!” 24 Por isso, um homem deixa seu pai e sua mãe, e se une à sua mulher, e eles dois se tornam uma só carne. 25 Ora, o homem e sua mulher estavam nus, porém, não sentiam vergonha.

 

A verdade é que a criatura nunca poderá ser o Criador. Porque se assim fosse o Criador haveria de se tornar criatura. E isto não tem lógica, porque no plano do ser, Criador é Criador e criatura sempre é criatura. A verdadeira liberdade humana não está na autonomia, mas na teonomia. Na autonomia a lei nasce do próprio homem, enquanto que na teonomia o homem interioriza e vive segundo a Lei de Deus.

 

1Jo 5,3 Amar a Deus significa observar os seus mandamentos. E os seus mandamentos não são pesados.

 

O homem livre podia viver intensamente no paraíso e comer dos frutos das árvores do jardim, inclusive da árvore da vida. Mas não podia comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comesse, com certeza morreria (Gn 2,17; 3,3). Não que Deus queira que o homem livre não conheça o bem e o mal. Mas há um limite. A criatura não pode decidir por si mesma o que é o bem e o mal, porque a Verdade é o Criador e não a criatura.

O lógico é que o homem deve ser humilde, ter os pés no chão e consciência das suas limitações de criatura. Não pode viver prescindindo de Deus, ou querendo ser deus ou até mais que Deus. Isto que é lógico e verdadeiro. Mas a tentação do diabo, a vaidade e a soberba foram tapando os ouvidos e cegando o homem. Ele errou o alvo, foi desobediente e orgulhoso. Quis viver sem a Graça e a Lei de Deus numa verdadeira embriaguez de autonomia. Os princípios da alma espiritual já não direcionavam mais o corpo material. O homem foi se tornando um ser carnal e perdido em um mundo de trevas, corrupto e fechado ao próprio Deus.

 

Gn 3,1 A serpente era o mais astuto de todos os animais do campo que Javé Deus havia feito. Ela disse para a mulher: “É verdade que Deus disse que vocês não devem comer de nenhuma árvore do jardim?” 2 A mulher respondeu para a serpente: “Nós podemos comer dos frutos das árvores do jardim. 3 Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: ‘Vocês não comerão dele, nem o tocarão, do contrário vocês vão morrer’”. 4 Então a serpente disse para a mulher: “De modo nenhum vocês morrerão. 5 Mas Deus sabe que, no dia em que vocês comerem o fruto, os olhos de vocês vão se abrir, e vocês se tornarão como deuses, conhecedores do bem e do mal”. 6 Então a mulher viu que a árvore tentava o apetite, era uma delícia para os olhos e desejável para adquirir discernimento. Pegou o fruto e o comeu; depois o deu também ao marido que estava com ela, e também ele comeu. 7 Então abriram-se os olhos dos dois, e eles perceberam que estavam nus. Entrelaçaram folhas de figueira e fizeram tangas. 8 Em seguida, eles ouviram Javé Deus passeando no jardim à brisa do dia. Então o homem e a mulher se esconderam da presença de Javé Deus, entre as árvores do jardim. 23 Então Javé Deus expulsou o homem do jardim de Éden para cultivar o solo de onde fora tirado. 24 Ele expulsou o homem e colocou diante do jardim de Éden os querubins e a espada chamejante, para guardar o caminho da árvore da vida.

 

A narrativa do Gênesis é simbólica. Não foi nada de comer uma maçã, não foi nada de relação sexual. Não foi nada disso. O pecado original foi a ignorância, o orgulho e a desobediência da criatura humana diante do Deus Criador.

O homem não deu ouvidos a Deus e se perdeu. “O pecado entrou no mundo através de um só homem e com o pecado veio a morte, assim também a morte atingiu todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5,12). Por propagação, a natureza humana foi ferida e tornou-se concupiscente, de modo que pela desobediência de um só homem todos se fizeram pecadores (Rm 5,19).

O Concílio de Trento ensina: “Se alguém não admite que o primeiro homem, Adão, tendo transgredido no paraíso a ordem de Deus, perdeu imediatamente a santidade e a justiça nas quais tinha sido constituído (constitulus), e que, por este pecado de prevaricação, incorreu na ira e na indignação de Deus e, por isso, na morte com que Deus o havia ameaçado anteriormente, e, com a morte, na escravidão sob o poder daquele que depois ‘teve o domínio da morte’ (Hb 2,14), isto é, o diabo; e que o Adão inteiro por aquele pecado de prevaricação mudou para pior, tanto no corpo como na alma (secundum corpus et animam in deterius com commutatum), seja anátema.”

 

A Igreja exorta sobre a realidade do pecado original sob pena de anátema. É o cuidado da Igreja para que não nos descuidemos e tratemos como sendo normal aquilo que pode levar a nossa alma para o inferno.

Pecado não é faz de conta. Pecado não é abstrato. É algo bem concreto que aparta da graça de Deus, escraviza, atrofia, torna o nosso ser concupiscente e suja a alma. O salário do Pecado é a morte, e morte eterna...

O demônio ama o Pecado porque ele sabe que é o modo de destruir a nossa vida com Deus. Por isso Deus revelou o que é o pecado e quais são os pecados mortais, para termos nojo deles e rejeitá-los...

Mas às vezes não nos damos conta da gravidade do pecado e consentimos com ele, estimamos alguns, alimentamos outros, justificamos aqueles... E até passamos a mão na cabeça de outras pessoas por quem somos responsáveis, dizendo para elas, ou não dizendo, que o pecado que estão cometendo não tem nada de grave e que podem permanecer neles sem problema algum...

A sociedade também não fala do pecado, ou justifica o pecado, que Deus é misericórdia infinita e no final todos vão pro céu...

Mas não é assim. O pecado aparta da graça do Deus Misericordioso, produz a morte eterna e somos culpados pelos nossos pecados e também somos culpados quando não ajudamos o outro a sair do seu próprio pecado. É por isso que a Igreja exorta sobre o pecado original sob pena de anátema, porque ele é a desgraça da humanidade desde os inícios da História e continua sendo muito atual.  


MOPD Gênesis 3,1-24