O Espírito impele Jesus e a Igreja à oração - Parte 2

O Espírito move a Igreja a rezar

 Bíblia Sagrada

Observamos duas coisas em Jesus: primeiro, que orava incessantemente, que a oração era o próprio tecido de sua vida; segundo, que orava “no Espírito”. Embora Cantalamessa coloque em destaque a oração na vida dos sacerdotes e pastores, nós iremos direcioná-la para a realidade DJC.

 

Os textos conciliares do Vaticano II falam com insistência da importância da oração, especialmente da oração litúrgica na vida dos presbíteros e dos bispos. Mas gosto de lembrar sobretudo o texto de Atos 6,4, no qual Pedro, na primeira repartição dos ministérios feita na Igreja, reserva a si e aos outros apóstolos a oração e o anúncio da palavra: Nós, ao contrário, nos dedicaremos a oração e ao ministério da palavra. Pedro, ou melhor, o Espírito Santo por sua boca, naquela ocasião afirmou um princípio fundamental para a Igreja: que um pastor pode delegar quase tudo na sua vida, mas não pode delegar a oração.

 

Esta passagem dos Atos, relativa à instituição dos diáconos, lembra sob muitos aspectos o texto do Êxodo (Ex 18, 13-24) em que se fala da instituição de juízes. Pedro repete na Igreja o que Moisés havia feito no povo de Israel.

 

Aceitando o conselho de Jetro, Moisés escolhe para si, entre todas as funções possíveis, aquela de “estar diante de Deus em nome do povo e apresentar as questões a Deus”. Isto não impede que Moisés exerça uma atividade legislativa e que continue a ser o verdadeiro guia do povo: apenas estabelece uma prioridade.

 

A propósito de “apresentar as questões a Deus”, ouvi esta estória do papa João XXIII. Ele mesmo contava que, nos primeiros dias de pontificado, acordava bruscamente de noite com muitos problemas na cabeça, um mais angustiante que o outro, e dizia a si mesmo: “É absolutamente necessário que eu diga isto ao Papa!” Mas depois, de repente, lembrava-se que o Papa agora era ele mesmo, e então dizia: “Bem, então falarei disto com Deus”, e voltava a dormir.

 

A decisão tomada por Moisés provinha de uma experiência recente do povo de Deus. Este havia superado a pouco uma ameaça de destruição proveniente dos amalecitas. Num momento de vida ou morte, Moisés estava no monte com os braços levantados em oração! Os outros lutavam com Amalec e ele lutava com Deus. Mas foi ele quem decidiu vitória do seu povo (cf Ex 17,8-16). Amalec – explica Orígenes – é aqui o símbolo das forças hostis que se opõem ao caminho do povo de Deus: Amalec é o demônio, é o mundo, o pecado. Quando este povo reza, é mais forte e rechaça Amalec; quando não reza (quando Moisés, cansado, deixa cair os braços), Amalec é mais forte.

 

São Bernardo, no De consideratione, escrito a convite do papa Eugênio III, aplica esta lição à vida do pastor da Igreja. Diz assim: “Não confies muito no grau de oração que agora possuis: ele pode deteriorar-se. Temo que no meio das tuas ocupações que são muitas, não tendo esperança alguma que tenham um fim, tua alma se torne árida. Por isto é mais importante que te subtraias a tais ocupações em tempo, em vez de ser arrastado por elas, aos poucos, para onde não queres ir, isto é, para a dureza do coração. Eis para onde poderiam levar-te estas malditas ocupações, se te entregares totalmente a elas, sem deixar nada para ti. Visto que todos te têm à disposição, sê também tu um dos que dispõem de ti. Recorda-te, pois, não digo sempre, não digo com freqüência, mas ao menos de vez em quando, de restituir-te a ti mesmo. Usa também tu de ti mesmo, como tantos outros, ou pelo menos depois dos outros”.

 

“A razão demonstra de maneira invencível que, se estivesse em nosso poder fazer o que é conveniente, seria necessário preferir em tudo e por tudo, seria necessário praticar exclusivamente ou antes de tudo, aquela virtude que serve a tudo, isto é, a piedade (cf. 1 Tm 4,8)” (De consideratione, I, 2-6).

 

Portanto, rezar. Mas não basta; Jesus nos ensinou que se pode fazer da oração a própria urdidura, ou o pano de fundo contínuo do próprio dia-a-dia. Devemos tender a isso, pois é possível. “Rezar incessantemente” (cf. Lc 18,1; 1 Ts 5,17) – escreve Agostinho – não significa estar continuamente de joelhos ou com os braços levantados. Existe outra oração, aquela interior, e é o teu desejo. Se o teu desejo for contínuo, será contínua também a tua oração. Quem deseja a Deus e o seu repouso, mesmo que cale com a língua, canta e ora com o coração. Quem não ‘deseja’, pode gritar quanto quiser, mas para Deus será como um mudo” (Enarr. Ps 37,14; 86,1).

 

Devemos descobrir e cultivar esta oração de desejo, ou “de coração”. “Desejo” significa tensão habitual a Deus, é desejo de todo o ser, é saudade de Deus. No início talvez sejam mais raros os momentos em que aflora na superfície, mas depois, aos poucos, aumentando em nós o espírito de oração, esta oração “subterrânea” vem à tona com freqüência sempre maior, até invadir todos os espaços disponíveis do dia, até tornar-se, como em Jesus, o pano de fundo de tudo. Como uma espécie de “inconsciente espiritual” que age também sem o nosso consentimento (sem que a nossa mente se dê conta). Também de noite. Quantas almas experimentaram a verdade daquela frase do Cântico dos Cânticos que diz: Durmo, mas meu coração vela! (Ct 5,2); acordando de noite, davam-se conta, com espanto, de que seu coração estava orando.  Quantas almas experimentaram também a verdade do salmista que diz:

 

Quando te recordo no meu leito, passo vigílias meditando em ti; pois foste um socorro para mim, a, à sombra de tuas asas, eu grito de alegria (Sl 63,7-8).

 

A oração contínua, ou de desejo, não deve fazer-nos negligenciar a necessidade vital que temos de um tempo específico e exclusivo para rezar, possivelmente em lugar solitário, como fazia Jesus. Ele nos disse: Quando orares, entra em teu quarto, e, fechada a porta, ora a teu Pai no segredo (Mt 6,6). Sem este tempo exclusivo de oração, é um ilusão aspirar à oração “incessante”, ou do coração.

 

Quando chega este momento estabelecido para colocar-nos em oração, é preciso interromper decididamente as ocupações e os pensamentos de antes. É preciso entrar no próprio castelo interior, levantando as pontes levadiças. “É preciso que coloques uma nuvem de esquecimento entre ti e todas as criaturas”, para estar em condições de entrar “na nuvem do não-conhecimento” que está sobre ti, entre ti e o teu Deus, isto é, para entrar na contemplação. (Cf. Anônimo, Nuvem do não-conhecimento)

 

É difícil, mas devemos esforçar-nos por fazê-lo, do contrário toda a oração ficará enfraquecida e dificilmente conseguirá elevar-se. É aconselhável dedicar os primeiros momentos deste tempo de oração a purificar o próprio Espírito, confessando as próprias culpas e implorando o perdão de Deus, visto que “nada de contaminado” pode unir-se a Deus (cf. Sb 7,25).

 

Uma oração renovada pelo Espírito

 

A de Jesus foi, sem dúvida, uma oração contínua, mas foi sobretudo uma oração espiritual, isto é, feita “no Espírito Santo”. Graças ao Espírito com que rezava, Jesus renovou no íntimo a oração humana. São Paulo recolhe e propõe à Igreja inteira este modelo de oração realizado por Jesus, quando narra aos efésios: Orai incessantemente com toda espécie de oração e de súplicas no Espírito (Ef 6,18). Oração incessante, pois, mas oração “no Espírito”.

 

Jesus não se contenta em com a oração oficial, nas horas estabelecidas, mas reza durante noites inteiras; isto é, não se limita a orar repetindo orações já feitas e reconhecidas, mas cria oração. O Espírito que renova todas as coisas, renova antes de tudo a coisa mais importante de todas que é a oração. Esta oração nova, livre como é livre o falar do filho com o seu pai (mas de uma liberdade toda interior e não “carnal”), não destrói a oração litúrgica oficial, antes a vivifica, introduzindo nela “Espírito de Vida”: Vem a hora, e já chegou em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em Espírito e verdade (Jo 4,23).

 

O segredo da renovação da oração, como o descobrimos na vida de Jesus, é pois o Espírito Santo: é aquele sopro poderoso que pode devolver a vida à nossa oração árida, como a deu aos ossos secos de Israel (cf. Ez 37,1ss). Por isso devemos fazer penetrar este sopro novo na nossa oração pessoal e litúrgica; devemos “espiritualizar” a nossa oração. Espiritualizar a própria oração significa fazer com que em nós esteja sempre mais o Espírito e sejamos sempre menos nós a rezar, que seja uma oração sempre menos ativa e sempre mais passiva, sempre menos discursiva e sempre mais contemplativa, até alcançar – se aprouver a Deus – aquela “oração de quietude” em que se coloca simplesmente o próprio coração ao lado do coração de Cristo e se grita com ele: Abba, Pai!

 

Neste caminho de espiritualização, parte-se da oração-diálogo. Há oração-diálogo quando nós e Deus falamos alternadamente: um fala e outro escuta, depois um escuta e o outro fala. Da oração-diálogo passa-se à oração-dueto; dá-se o dueto quando duas pessoas falam e cantam juntas, em uníssono. Uma oração-dueto é, por exemplo, quando no Apocalipse, o Espírito e a Esposa dizem (a Jesus): “Vem!” (Ap 22,17).

 

Mas há uma oração ainda mais espiritual que podemos chamar de oração-monólogo; esta oração se verifica quando, fazendo a experiência de que não sabemos, na verdade, o que nos convém pedir, numa determinada oração, deixamos que o Espírito reze em nós. Ele é o único que intercede pelos crentes segundo os desígnios de Deus (Rm 8,27), sendo o único que os conhece. Esta oração é praticamente infalível, porque nela se pede precisamente aquilo que o Pai deseja dar em primeiro lugar. Mas é uma oração que não se pode ensinar externamente, com palavras; somente a “unção” interior (cf. 1 Jo 2,20.27) pode fazê-la experimentar. Nela a nossa contribuição se limita, primeiro, a desejá-la, repetindo com freqüência, com simplicidade: “Espírito Santo, intercedei por nós segundo os desígnios de Deus!”, e, depois, a dizer: “Sim, Amém!” Um “sim” no vazio: “Digo sim, ó Pai, às coisas que o Espírito te pediu por mim! Digo: amém! à sua oração”.

 

Estas três formas de oração não devem necessariamente suceder-se, uma à outra,na vida, mas podem-se entrelaçar no mesmo tempo e no mesmo dia, dependendo das disposições de ânimo e do impulso e da graça.

 

Tal oração “no Espírito” deve servir para renovar na Igreja e em cada um de nós sobretudo uma coisa: o lugar da oração com relação à ação (e, por ação, entendo aqui qualquer outra coisa que não seja oração). A novidade é esta. É preciso passar de uma justaposição, a uma subordinação.

 

A justaposição é, pois, quando antes se reza e depois se trabalha, se age. A subordinação, ao contrário, é quando antes se reza e depois se faz o que está imerso na oração! Os apóstolos e os santos oravam para saber o que fazer, ou simplesmente antes de fazer alguma coisa. É necessária uma conversão profunda. Se a pessoa verdadeiramente crê que Deus governa a Igreja com o seu Espírito, e que este responde quando é invocado, então ela levará muito a sério a oração que precede um encontro, uma sessão de comissão; é preciso não ter pressa para passar às coisas; mais ainda, não se passa às coisas se não se tem alguma resposta através da Bíblia, uma inspiração, uma palavra profética. Quanto maior o tempo que se dedica à oração, a propósito de um problema, tanto maior será depois o tempo necessário para resolvê-lo.

 

                      Para Jesus, rezar e agir não eram duas coisas separadas; de noite com freqüência rezava ao Pai e depois, chegado o dia, realizava o que tinha decidido na oração: escolhia os Doze, encaminhava-os para Jerusalém etc.

Também aqui, é necessário “restituir o poder a Deus”: o poder de decidir, a iniciativa, a liberdade de intervir em qualquer momento da vida da sua Igreja. É preciso coloca a confiança em Deus, não em nós mesmos. Somos impulsionados pelo vento do “alto” que é aproveitado na “vela” da oração.

 

“Ó dulcíssimo amor, viste a necessidade da santa Igreja e lhe proporcionaste o remédio de que tinha necessidade; este remédio é a oração dos teus servos, com os quais queres que se faça um muro para sustentar o muro da santa Igreja. São aqueles servos aos quais o teu Espírito infunde desejos ardentes para a reforma da própria Igreja (Oraç. VII)”.

 

Resumido por Edilma Saboia, do Livro “O Espírito Santo na Vida de Jesus” do Frei Raniero Cantalamessa


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