Intercessão: confiança na misericórdia divina

Pessoa intercedendo com terço na mão.

Seja quem você for, leva um povo em você. A eles você deve a sua intercessão.

O intercessor é chamado a ser o mediador entre Deus e os homens. No entanto, é preciso que tenha clareza sobre sua própria condição humana, de ser frágil e pecador. Para isso precisa estar livre de qualquer cegueira espiritual, assumindo suas fraquezas e oferecendo-as em sacrifício por si mesmo e pelos irmãos. E tendo você conhecido e experimentado as próprias fragilidades será capaz de se compadecer dos outros.

 

Santa Teresa de Jesus nos fala que a tarefa mais difícil é permanecer unido Àquele que é tão diferente de nós. Ele todo santo, nós tão pecadores. Chega a ser angustiante perceber o quanto ainda estamos longe daquilo que Ele deseja. Mas ao mesmo tempo é consolador saber que Ele faz questão de estar conosco, de derramar sobre nós a Sua misericórdia, de resgatar sempre aqueles que Ele ama. Esse perceber Deus conosco, amando-nos e resgatando-nos, para além de todas as nossas misérias, é experimentar a misericórdia divina que nos permitirá olhar o outro também como um pobre necessitado de compaixão e nos fará pedir por ele, assumindo em nós o desejo de Deus que é sempre salvar a humanidade.

 

Para você se tornar um ser de misericórdia e de fidelidade para os irmãos, é preciso provar da misericórdia, da fidelidade de Deus na oração. E, para isso, provar de sua própria miséria e infidelidade... E, nesse coração de misericórdia, você encontra a miséria de seus irmãos. “No céu serão glorificados todos aqueles que oraram pelo mundo inteiro e levaram para os céus os sofrimentos do mundo, pois tinham o amor de Cristo, e o amor não suporta que pereça uma alma sequer” (Silouane). Desta forma, interceder é, por excelência, uma obra de caridade.

 

Daí a grande necessidade de o intercessor viver sempre unido a Deus pela oração. Ele precisa conhecer profundamente o Senhor e ao mesmo tempo conhecer a si próprio. Pedir sempre a graça do autoconhecimento para ver suas misérias, seu pecado, arrepender-se e pedir perdão. Assim, com humildade pode se dirigir a Deus para pedir por si e pelos demais, pois “Deus resiste aos soberbos, e aos humildes dá a sua graça” (Tg 4,6). Unindo seu sacrifício ao de Cristo, o intercessor aniquila-se a si mesmo, doa-se por completo, aceita perder tudo pela realização do projeto do Senhor e a salvação das almas. Ele pede, intervém e o faz com convicção porque conhece a miséria humana e experimenta cotidianamente a misericórdia do coração de Deus.

 

Por isso podemos dizer que toda intercessão é apenas uma participação na intercessão de nosso Senhor Jesus. O Evangelho nos deixa entrever que sua intercessão é constante. Alguns pedaços foram filtrados, até na cruz: “Pai, perdoa!”. Sua última oração, real e sacerdotal, não é mais que uma grande intercessão, que pede para nós o essencial: a proteção do mal, a comunhão, a glória, a alegria, quer dizer, o Espírito!

“A intercessão é uma oração de pedido que nos conforma de perto com a oração de Jesus. Ele é o único Intercessor junto do Pai em favor de todos os homens, dos pecadores, sobretudo. Ele é "capaz de salvar de modo definitivo aqueles que por meio dele se aproximam de Deus, visto que Ele vive para sempre para interceder por eles" (Hb 7,25). O próprio Espírito Santo "intercede por nós... pois é segundo Deus que ele intercede pelos santos" (Rm 8,26-27).

 

Interceder, pedir em favor de outro, desde Abraão, é próprio de um coração que está em consonância com a misericórdia de Deus. No tempo da Igreja, a intercessão cristã participa da de Cristo; é a expressão da comunhão dos santos. Na intercessão, aquele que ora "não procura seus próprios interesses, mas pensa sobretudo nos dos outros" (Fl 2,4) e reza por aqueles que lhe fazem mal” (CIC, 2634 - 2635).

 

Seu coração não pode aproximar-se do Coração de Deus sem ser dilatado ao infinito. Ele passa a abraçar cada pessoa humana. Nenhuma pessoa é estrangeira para você. Nenhum acontecimento do mundo ou da Igreja está distante de você. Apaixonado de Deus, você está apaixonado por tudo.

 

Assim como os monges no deserto reúnem em si uma multidão, o intercessor também traz em si os apelos de todo o povo de Deus.

 

A intercessão é a súplica que se transmuda em compaixão. A intercessão, como a compaixão, jorra da ferida de um coração compassivo como o de Deus.

 

Interceder é interpor-se entre o coração do homem e o Coração de Deus. É gritar para Deus todos os gritos dos homens e lançar para o homem todos os gritos de Deus.

 

Como Moisés, você sobe a montanha e fica diante de Deus em nome e no lugar de seu povo para poder, depois, descer e ficar diante do seu povo, em nome e no lugar de Deus. Na montanha, ele é o embaixador, o porta-voz dos seus. Tendo descido, é o embaixador, o porta-voz de Deus. Como ele, com uma mão você segura a dos seus, com a outra a de Deus. E não há de parar enquanto suas duas mãos – a humana e a divina – não estiverem juntas. Ele prefere ser morto ou rejeitado a ser arrancado de seu povo.

 

“Moisés, o grande profeta e guia do tempo do Êxodo, desempenhou a sua função de mediador entre Deus e Israel fazendo-se portador, junto do povo, das palavras e dos mandamentos divinos, conduzindo-o rumo à liberdade da Terra Prometida, ensinando os israelitas a viverem na obediência e na confiança em Deus, durante a sua longa permanência no deserto, mas também, e diria principalmente, rezando. Ele reza pelo Faraó quando Deus, com as pragas, procurava converter o coração dos Egípcios (cf. Êx 8–10); pede ao Senhor a cura da irmã Maria, atingida pela lepra (cf. Nm 12, 9-13), intercede pelo povo que se tinha revoltado, amedrontado pela descrição dos exploradores (cf. Nm 14, 1-19), reza quando o fogo estava prestes a devorar o acampamento (cf. Nm 11, 1-2) e quando serpentes venenosas faziam matanças (cf. Nm 21, 4-9); dirige-se ao Senhor e reage, protestando quando o fardo da sua missão se tinha tornado demasiado pesado (cf. Nm 11, 10-15); vê Deus e fala com Ele «face a face, como alguém que fala com o próprio amigo» (cf. Êx 24, 9-17; 33, 7-23; 34, 1-10.28-35).

 

Mesmo quando o povo, no Sinai, pede a Araão que construa o bezerro de ouro, Moisés reza, explicando de maneira emblemática a própria função de intercessão.

 

Enquanto o Senhor, no monte, oferece a Lei a Moisés, aos pés do mesmo monte o povo transgrede-a. Incapazes de resistir à expectativa e à ausência do mediador, os israelitas pedem a Araão: «Faz-nos um deus que caminhe à nossa frente, porque a Moisés, que nos tirou do Egipto, não sabemos o que lhe aconteceu» (Êx 32, 1). (...) Aquilo que acontece no monte Sinai demonstra toda a insensatez e vaidade ilusória desta pretensão porque, como afirma ironicamente o Salmo 106, «Eles trocaram a sua glória pela estátua de um touro que come feno» (Sl 106 [105], 20). Por este motivo, o Senhor reage e ordena a Moisés que desça do monte, revelando-lhe aquilo que o povo estava a fazer, e terminando com estas palavras: «Deixa, pois, que se acenda a minha cólera contra eles e os devore; mas de ti farei uma grande nação» (Êx 32, 10). Como tinha acontecido com Abraão, a propósito de Sodoma e Gomorra, também agora Deus revela a Moisés o que pretende fazer, como se não quisesse agir sem o seu consenso (cf. Am 3, 7). Ele diz: «Deixa, pois, que se acenda a minha cólera». Na realidade, este «deixa, pois, que se acenda a minha cólera» é pronunciado precisamente para que Moisés intervenha e lhe peça para não o fazer, revelando deste modo que o desejo de Deus é sempre a salvação. Como para as duas cidades dos tempos de Abraão, a punição e a destruição, em que se exprime a ira de Deus como rejeição do mal, indicam a gravidade do pecado cometido; ao mesmo tempo, o pedido do intercessor tenciona manifestar a vontade de perdão do Senhor. Esta é a salvação de Deus, que implica misericórdia, mas ao mesmo tempo também denúncia da verdade do pecado, do mal que existe, de maneira que o pecador, reconhecendo e rejeitando o próprio mal, possa deixar-se perdoar e transformar por Deus. A prece de intercessão torna deste modo concreta, no contexto da realidade corrompida do homem pecador, a misericórdia divina, que encontra voz na súplica do orante e que se torna presente através dele onde há necessidade de salvação.

 

A súplica de Moisés está inteiramente centrada na fidelidade e na graça do Senhor. Ele refere-se em primeiro lugar à história de redenção à qual Deus deu início com a saída de Israel do Egipto, para depois fazer memória da antiga promessa feita aos Pais. O Senhor realizou a salvação, libertando o seu povo da escravidão egípcia; para que então — pede Moisés — «os egípcios possam dizer: “Fê-los sair com a malícia, para os deixar morrer nas montanhas, para os fazer desaparecer da face da terra”?» (Êx 32, 12). A obra de salvação começada deve ser completada; se Deus fizesse perecer o seu povo, isto poderia ser interpretado como o sinal de uma incapacidade divina de completar o plano de salvação. Deus não pode permitir que isto aconteça: Ele é o Senhor bom que salva, o garante da vida, é o Deus de misericórdia e de perdão, de libertação do pecado que mata. E assim Moisés apela-se a Deus, à vida interior de Deus, contra a sentença exterior. Mas então, Moisés argumenta com o Senhor, se os seus eleitos perecerem, mesmo que sejam culpados, Ele poderia parecer incapaz de derrotar o pecado. E isto não se pode aceitar. Moisés fez uma experiência concreta do Deus de salvação, foi enviado como mediador da libertação divina e agora, mediante a sua oração, torna-se intérprete de uma dupla inquietação, preocupado com o destino do seu povo, mas ao mesmo tempo também preocupado com a honra que é devida ao Senhor, pela verdade do seu Nome. Com efeito, o intercessor deseja que o povo de Israel seja salvo, porque é o rebanho que lhe foi confiado, mas inclusive a fim de que naquela salvação se manifeste a verdadeira realidade de Deus. Amor aos irmãos e amor a Deus compenetram-se na prece de intercessão, são inseparáveis. Moisés, o intercessor, é o homem contendido entre dois amores, que na oração se sobrepõem num único desejo de bem.

 

Moisés faz memória da história fundadora das origens, dos Pais do povo e da sua eleição, totalmente gratuita, em que só Deus tivera a iniciativa. Eles não receberam a promessa por causa dos seus méritos, mas pela livre escolha de Deus e do seu amor (cf. Dt 10, 15). E agora, Moisés pede que o Senhor continue na fidelidade à sua história de eleição e de salvação, perdoando o seu povo. O intercessor não apresenta desculpas para o pecado do seu povo, não enumera méritos presumíveis, nem do povo nem seus, mas apela para a gratuidade de Deus: um Deus livre, totalmente amor, que não cessa de procurar quem se afastou, que permanece sempre fiel a Si mesmo e oferece ao pecador a possibilidade de voltar para Ele e de se tornar, mediante o perdão, justo e capaz de fidelidade. Moisés pede a Deus que se mostre até mais forte do que o pecado e a morte e, com a sua oração, suscita este revelar-se divino. Mediador de vida, o intercessor solidariza com o povo; desejoso unicamente da salvação que o próprio Deus deseja, ele renuncia à perspectiva de se tornar um novo povo agradável ao Senhor. A frase que Deus lhe tinha dirigido, «de ti farei uma grande nação», nem sequer é tomada em consideração pelo «amigo» de Deus, que ao contrário está pronto a assumir sobre si mesmo não só a culpa do seu povo, mas todas as suas consequências. Quando, depois da destruição do bezerro de ouro, ele voltar ao monte para pedir de novo a salvação de Israel, dirá ao Senhor: «Rogo-te que lhes perdoes agora este pecado! Senão, apaga-me do livro que escreveste» (v. 32). Com a oração, desejando a vontade de Deus, o intercessor entra cada vez mais profundamente no conhecimento do Senhor e da sua misericórdia, tornando-se capaz de um amor que chega até ao dom total de si mesmo. Em Moisés, que está no alto do monte face a face com Deus e que se faz intercessor para o seu povo e se oferece a si próprio — «apaga-me» — os Padres da Igreja viram uma prefiguração de Cristo que, no alto da cruz, realmente está diante de Deus, não apenas como amigo, mas como Filho. E não só se oferece — «apaga-me» — mas com o seu coração trespassado faz-se cancelar, torna-se como diz o próprio são Paulo, pecado, carrega sobre si os nossos pecados para nos salvar a todos; a sua intercessão é não só solidariedade, mas identificação connosco: traz todos nós no seu corpo. E assim toda a sua existência de homem e de Filho é um clamor ao Coração de Deus, é perdão, mas perdão que transforma e renova.

 

Penso que devemos meditar sobre estas realidades. Cristo está diante do Rosto de Deus e reza por mim. A sua oração na Cruz é contemporânea a todos os homens, contemporânea a mim: Ele reza por mim, sofreu e sofre por mim, identificou-se comigo, assumindo o nosso corpo e a nossa alma humana” (Bento XVI, A intercessão de Moisés pelo povo).

 

Seja quem você for, leva um povo em você. A eles você deve a sua intercessão. Se você está em situação de autoridade, orar por aqueles pelos quais você é responsável é uma exigência, perdão, uma necessidade do coração!

 

“Meu irmão é a minha vida. Sofro o seu afastamento de Deus como se fosse meu. Ele inspira a oração como se tratasse de meu próprio afastamento” (Silouane).

 

Você é então a voz dos que não têm voz. Dos que nunca rezam; nunca pensam em lançar para Deus esses gritos que os roem a partir de dentro. É a oração tão simples, tão bela, ensinada pelo Anjo aos pequeninos pastores de Fátima que gostam muito de repetir após cada dezena do rosário: “Meu Deus, eu creio, adoro, espero e te amo.

 

A intercessão pode significar um combate, uma luta, um corpo a corpo com aquele que nos agride de todos os lados para desviar-nos de nosso trabalho de intercessor, nos fazer relaxar nossa vigilância sobre o mundo, fazer com que nossos braços caiam enquanto o povo combate na planície. Ele não suporta que sejamos Moisés com os braços em cruz, sustentando o povo que combate na planície, que estejamos conversando com Deus e pedindo que Ele cumpra suas promessas pela salvação do Seu povo e para manter a Sua glória.

 

 “Interceder é aceitar colocar-se no coração de uma situação crucificante que nos coloca entre duas partes em conflito, que nos torna totalmente solidários com o homem e totalmente solidários com Deus. Situação que não temos o direito de abandonar, pois é compromisso daquele que se identifica com as duas partes a ponto de destruir, na ruptura do seu ser, a divisão que existe entre os dois. A encarnação nos mostra essa dupla solidariedade total, sem limites, com todas as suas conseqüências dilacerantes e crucificantes, e a onda de amor que a seguiu. Intercessão e contemplação se unem nessa presença cada vez mais aguda de Deus e do mundo no coração daquele que reza, presença que se torna tão densa que no fundo dela se descobrem, envolvido em seu amor, aqueles pelos quais se ora” (A. Bloom).

 

Adaptado por Edilma Saboia

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