DA IMACULADA CONCEIÇÃO - PARTE 3

AS FESTAS DE NOSSA SENHORA

Dogma da Imaculada Conceição de Maria. Imagem de Nossa Senhora Aparecida.

DA IMACULADA CONCEIÇÃO


CAPÍTULO II

Certeza da Imaculada Conceição

Advertência.

Muitos doutores sustentam que Maria foi isenta de contrair até o débito do pecado. Assim falam Galatino, o Cardeal Cusano, de Ponte, Salazar, Catarino, Viva, Novarino, de Lugo e outros. Essa opinião é muito bem fundada. Apoiandose na sentença de S. Paulo: “Todos pecaram em Adão”, Gonet, Habert e outros sustentam com fundamento que na vontade de Adão, como chefe do gênero humano, foram incluídas as vontades de todos os homens. Se isso é provavelmente verdade, também o é que Maria não tenha contraído o débito do pecado original. Pois tendo-a Deus com sua graça singularmente distinguido do comum dos homens, devemos crer piamente que a vontade de Maria não foi incluída na de Adão. Essa opinião é provável apenas, mas eu adoto como sendo mais gloriosa para minha Senhora.

Tenho por certa, entretanto, a sentença de que Maria não contraiu o pecado de Adão. Igualmente por tal, e quase por dogma de fé, têm-na o Cardeal Everardo, Duvállio, Reinaldo e Lossada, Viva e outros muitos. Não tomo em conta as revelações feitas a S. Brígida e aprovadas pelo Cardeal Turrecremata e por quatro Sumos Pontífices. Comparem-se por exemplo vários trechos do Livro VI. Mas tenho de apresentar impreterivelmente:

1. O unânime testemunho dos Santos Padres, quanto a esse privilégio de Maria

S. Ambrósio faz a natureza humana dizer ao Verbo Eterno, no momento de sua Encarnação: Toma-me, ó Filho de Deus, não de uma Sara, mas de Maria que é uma virgem intacta, virgem isenta, pela graça, de toda mancha do pecado. – Orígenes assim fala sobre Maria: Não está contaminada pelo envenenado hálito da serpente. De imaculada, de livre de todo e mínimo labéu, a chama S. Efrém. Escreve o Pseudo-Agostinho sobre o texto da saudação angélica: Maria estava – e note-se – completamente livre da cólera da primeira sentença, e possuía a graça toda da bênção. Esta nuvem – são palavras do Pseudo-Jerônimo – nunca foi escura, mas sempre resplandecente.

Vulgato Cipriano (Arnoldo de Chartres) observa: “A justiça não admitia que aquele vaso de eleição fosse atingido pela mácula comum. Ao contrário de todos os homens, com eles compartilhou da mesma natureza, mas não da mesma culpa”. Eis as palavras de S. Anfilóquio: Aquele que formou a primeira virgem sem defeito, formou também a segunda sem mancha e sem culpa. No VI Concílio Ecumênico de Constantinopla (680-81) falou S. Sofrônio: O Filho de Deus baixou ao ventre de Maria guardado intacto por casta virgindade, e a virgem estava isenta de todo contágio no corpo e na alma. Escreve Vulgato Ildefonso (Pascásio Radberto): É fora de dúvida que a Virgem não foi atingida pela culpa original. S. João Damasceno é de opinião que de Maria, como de um limo puríssimo, o Verbo Eterno se escolheu a forma humana. Que o corpo da Virgem não herdou a mancha de Adão, embora dele tenha sua origem, nos garante Nicolau, monge. Por sua vez S. Bruno de Segni anuncia: É Maria terra abençoada por Deus e por isso isenta de todo contágio de pecado. É incrível que o Filho de Deus haja querido nascer de uma Virgem, se ela de algum modo houvesse sido maculada pela culpa original, diz S. Bernardino de Sena. As palavras de S. Lourenço Justiniano testemunham que Deus abençoou a Maria desde o momento de sua conceição. – Sobre o texto onde se afirma que Maria achou graça diante do Senhor, o Abade de Celes tece a seguinte saudação: Ó dulcíssima Senhora, Deus se agradou extraordinariamente de vós e fostes preservada do pecado original.

De semelhante modo fala um grande número de teólogos.
Finalmente, dois motivos nos certificam da verdade dessa pia sentença.

2. O primeiro é o consenso universal dos fiéis sobre esse ponto

Atesta o padre Egídio da Apresentação que todas as Ordens religiosas são partidárias da nossa doutrina. Na Ordem de S. Domingos, diz um autor moderno, embora 92 escritores defendam a opinião contrária, 136 defendem a nossa. O sentimento comum dos católicos é favorável a essa doutrina. Sobretudo deve convencer-nos a Bula Solicitudo omnium Ecclesiarum, de 1661, escrita por Alexandre VII. Nela se diz: A devoção à Virgem Imaculada cresceu e espalhou-se e, depois que as escolas apoiaram essa pia doutrina, a partilham agora quase todos os católicos. Realmente as Academias de Sorbona, de Alcalá, de Salamanca, de Coimbra, de Colônia, de Mogúncia, de Nápoles e muitas outras a defendem com ardor. Nelas o bacharelado laureado compromete-se sob juramento a defender a Imaculada Conceição. De fato, este argumento do consenso comum dos fiéis, empregado pelo doutor Petávio, não nos pode deixar de convencer, anota o sábio bispo Torni. Em verdade, este mesmo consenso dos fiéis já nos certifica da santificação de Maria no seio materno e da sua Assunção ao céu, em corpo e alma. Mas por que não nos certificaria ele igualmente de sua Imaculada Conceição? O outro motivo, mais forte que o primeiro, para nos convencer do glorioso privilégio de Maria Imaculada, é:

3. A introdução da festa de Nossa Senhora da Conceição pela Igreja universal

Nesse particular vejo, com efeito, que a Igreja celebra o primeiro instante da criação e da união da alma de Maria com o seu corpo. Conclui-se isso da citada Bula de Alexandre VII. Aí ele declara que a Igreja celebra a Conceição de Maria, no sentido que lhe dá a pia sentença, segundo a qual foi ela concebida sem a culpa original. De outro lado sei que a Igreja não pode festejar o que não é santo, conforme a decisão de S. Leão, Papa, de Eusébio, e de muitos outros teólogos como o Pseudo-Agostinho, S. Bernardo e S. Tomás. Este último serve-se justamente desse argumento, em prova da santificação de Maria antes de seu nascimento. A Igreja – diz ele – celebra a festa da Natividade de Maria. Ora, festejando ela tão somente o que é santo, diga-se que Maria já foi, por conseguinte, santificada no seio materno. No pensamento do Santo Doutor é certa a santificação da Virgem por lhe celebrar a Igreja essa data. Por que então não poderemos ter por certo que Maria foi preservada do pecado original, desde o primeiro instante de sua Conceição, já que é notório que, nesse mesmo sentido, a mesma Igreja estabeleceu uma festa própria?

Tem o Senhor se dignado confirmar esse grande privilégio de Maria, dispensando cada dia no reino de Nápoles inumeráveis e prodigiosas graças, por meio das estampas da Imaculada Conceição. Eu poderia referir muitos para os quais os padres de nossa Congregação deram ensejo.

EXEMPLO

Numa das casas de nossa Congregação no reino de Nápoles, aconteceu ir uma vez certa mulher dizer a um dos nossos padres que seu marido não se confessava havia muitos anos. A pobre não sabia mais que meios empregar para levá-lo ao cumprimento de seus deveres religiosos, pois que a maltratava quando lhe falava em confissão. Aconselhou o padre que desse ao marido uma estampa de Maria Imaculada. À noite ela pediu de novo ao rebelde que se confessasse. Foi em vão; como de costume ele fez-se de surdo. Deu-lhe então a esposa a referida estampa. E eis que apenas a recebeu, o marido disse logo: Então quando queres que me confesse? Estou pronto. – A mulher pôs-se a chorar de alegria, vendo aquela mudança tão súbita. Na manhã seguinte, foi com efeito à nossa igreja. O padre perguntou-lhe há quanto tempo não se confessava. – Há vinte e oito anos, respondeu ele. – E como, tornou o padre, se resolveu a vir hoje? – Meu pai, tornou ele, eu estava obstinado; mas ontem à noite minha mulher deu-me uma imagem de Nossa Senhora, e logo senti mudar se-me o coração. E isso de tal sorte que esta noite os momentos me pareciam mil anos, tanto desejava que amanhecesse para vir confessar-me. – Confessou-se efetivamente com muita compunção, mudou de vida, e continuou por muitos anos a confessar-se a miúdo com o mesmo padre.

Num lugar da diocese de Salerno, durante uma missão que aí demos, havia certo homem que nutria grande inimizade contra um outro que o tinha ofendido. Um padre exortou-o ao perdão, porém ele respondeu: – Meu padre, já que me vistes assistir às prédicas – Não. – E sabeis por quê? É que já me vejo condenado; mas não me importa: quero vingar-me. – O padre empregou todos os meios para dissuadi-lo, porém, vendo que eram baldadas suas palavras: Tomai, disse-lhe, esta estampa da Senhora da Conceição. A princípio o homem respondeu: E para que serve ela? Mas assim que a tomou, como se nunca se tivesse negado a perdoar, disse ao missionário: Padre, não quereis mais alguma coisa além do perdão? Estou pronto a concedê-lo. – Com efeito marcaram a reconciliação para a manhã seguinte. No outro dia, entretanto, o homem mudou de opinião, e já nada mais queria fazer. Ofereceu-lhe o padre outra imagem, que ele recusou no começo, mas afinal, à força de instâncias, recebeu. E, ó maravilha! apenas segurou essa segunda imagem, disse imediatamente: − Ora, vamos! acabemos logo com esta briga! Onde está o meu inimigo? – Perdoou logo, com efeito, confessando-se em seguida.

ORAÇÃO

Ó minha Senhora, minha Imaculada, alegro-me convosco por ver-vos enriquecida de tanta pureza. Agradeço e proponho agradecer sempre a nosso comum Criador por ter-vos ele preservado de toda mancha de culpa. Disso tenho plena convicção e, para defender este vosso tão grande e singular privilégio da Imaculada Conceição, juro dar até a minha vida. Estou pronto a fazê-lo, se preciso for. Desejaria que o mundo universo vos reconhecesse e confessasse como aquela formosa aurora, sempre adornada da divina luz; como aquela arca eleita de salvação, livre do comum naufrágio do pecado; como aquela perfeita e imaculada pomba, qual vos declarou vosso divino Esposo; como aquele jardim fechado, que foi as delícias de Deus; como aquela fonte selada, na qual o inimigo jamais pôde entrar para turvá-la; como aquele cândido lírio, finalmente, que, brotando entre os espinhos dos filhos de Adão, enquanto todos nascem manchados da culpa e inimigos de Deus, vós nascestes pura e imaculada, amiga de vosso Criador.

Consenti, pois, que ainda vos louve, como vos louvou vosso próprio Deus: Toda sois formosa e em vós não há mancha. Ó pomba puríssima, toda cândida, toda bela, sempre amiga de Deus! Dulcíssima, amabilíssima, imaculada Maria, vós que sois tão bela aos olhos do Senhor, não recuseis olhar com vossos piedosíssimos olhos as chagas tão asquerosas de minha alma. Olhai-me, compadecei-vos de mim, e curai-me. Ó belo ímã dos corações, atraí para vós também este meu miserável coração. Tende piedade de mim, que não só nasci em pecado, mas ainda depois do batismo manchei minha alma com novas culpas, ó Senhora, que desde o primeiro instante de vossa vida aparecestes bela e pura aos olhos de Deus. Que graça vos poderá negar o Deus que vos escolheu para sua Filha, sua Mãe e sua Esposa, e por essa razão vos preservou de toda mancha? Virgem Imaculada, a vós compete salvar-me, dir-vos-ei com S. Filipe Néri. Fazei que me lembre de vós; e não vos esqueçais de mim. Parece tardar mil anos o momento de ir contemplar vossa beleza no Paraíso, para melhor louvar-vos e amar-vos, minha Mãe, minha Rainha, minha Amada, belíssima, dulcíssima, puríssima, imaculada Maria. Amém.

Fonte: Glórias de Maria - Santo Afonso Maria de Ligório

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