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Adoração ao Santíssimo Sacramento na sede do DJC Canindezinho;


“Dei-vos o exemplo”

A Eucaristia faz a Igreja mediante imitação


Na narração da Última Ceia que S. Lucas e S. Paulo nos deixaram, encontramos o mandamento de Jesus: “Fazei isto em memória de Mim”. Também na narração feita por S. João encontramos um mandamento de Jesus: “Dei-vos o exemplo, vós deveis fazer a mesma coisa que Eu fiz” (Jo13, 15). Embora estes mandamentos estejam de acordo entre si, apresentam também uma diferença: no primeiro caso, trata-se de “fazer memória”, e, portanto de algo que se refere à liturgia; no segundo caso, trata-se de uma ação, ou seja, de algo que se refere à vida. É a mesma progressão evangélica que nos impele, por isso, a passar da memória à imitação, da contemplação eucarística à praxe eucarística.

A cena descrita por S. João nos capítulos 13-17 não é uma ceia “pascal”. A ceia pascal hebraica tinha lugar na tarde de 14 de Nissan, na qual, segundo S. João, Jesus morre (Jo 18,28).

Mas o que nos interessa é saber a razão pela qual S. João, na narração da Última Ceia, não fala da instituição da Eucaristia, e fala antes, em seu lugar, do lava-pés. O motivo verdadeiro é que, em tudo o que diz respeito à Páscoa e à Eucaristia, S. João demonstra acentuar mais o acontecimento do que o sacramento, ou seja, mais o significado do o sinal. Para ele, a nova páscoa não começa tanto no Cenáculo, quando se institui o rito que a deve comemorar, mas começa sobretudo na cruz, quando se cumpre o acontecimento que deve ser comemorado. O evangelista impele-nos a passar da liturgia à vida, da memória à imitação da Eucaristia.

1.  O significado do lava-pés

Eu, diz Jesus, dei-vos o exemplo. Deu-nos o exemplo de quê?
Um dia em que eu relia a narração do lava-pés, impressionou-me a afinidade profunda com o hino a Cristo da Carta aos Filipenses. Também ali temos um convite à imitação: “Tende em vós os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo; segue-se depois a descrição de que, sendo embora de condição divina, “Se esvaziou a Si mesmo”, para assumir a “condição de servo”. Por outro lado, o evangelista traduz em imagens plásticas e em gestos concretos o que em Paulo é dito de um modo mais geral e explícito.

Trata-se sempre do mesmo tema que percorre todo o Novo Testamento: Jesus, servo de Deus e dos homens.

No lava-pés, Jesus quis como que resumir todo o sentido da sua vida, para que ficasse bem impresso na memória dos discípulos, e um dia, quando pudessem compreender, compreendessem: “O que estou a fazer não o podes compreender agora. Compreendê-lo-ás mais tarde” (Jo 13,7). Aquele gesto nos diz que toda a vida de Jesus foi um lava-pés, isto é, um serviço aos homens. Foi uma pró-existência, ou seja, uma existência vivida em favor dos outros.

Jesus deu-nos o exemplo de uma vida gasta pelos outros, uma vida feita “pão partido para o mundo”. Com as palavras: “Vós deveis fazer a mesma coisa que eu fiz”, Jesus institui a diakonía, ou seja, o serviço, elevando-o a lei fundamental, ou melhor, a estilo de vida e modelo de todas as relações na Igreja.

Jesus tinha dito a Pedro que haveria de compreender depois, e de fato, depois, ou seja, depois da Páscoa – a Igreja não deixa de falar de serviço e de o inculcar, por todos os meios, aos discípulos. A própria doutrina dos carismas está toda orientada para o serviço; o serviço é a alma e finalidade de qualquer carisma. São Paulo explicita essa doutrina em 1 Cor 12,7 e Ef 4,12. Também Pedro, ao recomendar a hospitalidade, escreve: “Cada um viva segundo a graça (chárisma) recebida, colocando-a ao serviço (diakonía) dos outros” (1 Pd 4,10). Carisma e ministério aparecem sempre ligados entre si. Um carisma que não se explicita em serviço é como o talento enterrado, eu se transforma em causa de condenação (Mt 25,25). A Igreja é carismática para servir.

2.  O espírito de serviço

O serviço não é, em si mesmo, uma virtude. Em si mesmo, o serviço é uma coisa neutra: indica uma condição de vida, ou um modo de relacionar-se com os outros no seu trabalho, um ser na dependência de outrem. Todos hoje falam de serviço; todos se dizem a serviço; dos que fazem qualquer tarefa na sociedade, diz-se que prestam serviço, ou que está de serviço. Mas o serviço de que fala o Evangelho é outra coisa. A diferença está toda nas motivações e na atitude interior com que o serviço é feito. “Ele que tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim” (Jo 13, 1). O serviço não é uma virtude, mas nasce das virtudes e, em primeiro lugar, da caridade; é, inclusive, a maior expressão do mandamento novo. O serviço é um modo de manifestação da ágape, ou seja daquele amor que “não procura o seu próprio interesse’ (1 Cor 13,5), mas o dos outros, que não é feito de procura, mas de doação. É uma participação e imitação do agir de Deus.

Por isso, o serviço evangélico não é próprio do inferior, do necessitado, de quem não tem, mas é próprio de quem possui, de quem está no alto, de quem tem. Àquele a quem foi dado muito, muito será pedido, no tocante a serviço (Lc 12,48). Por isso, Jesus diz que é sobretudo “quem governa” que deve ser “como aquele que serve” (Lc 22,26) e quem é o primeiro que deve ser “o servo de todos” (MC10,44). O lava-pés é “o sacramento da autoridade cristã” (C. Spicp)

Juntamente com a gratuidade, o serviço exprime outra característica da ágape divina: a humildade. Devemos prestar uns aos outros o serviço de uma caridade humilde. Caridade e humildade, juntas, formam o serviço evangélico.

“Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). O que fez Jesus para definir-se humilde? Abaixou-Se, esvaziou-Se para servir! A partir do momento da Encarnação, não fez mais do que descer, descer, até àquele ponto extremo, quando O vemos de joelhos, no ato de lavar os pés aos apóstolos.  Entendida como abaixamento para servir – a humildade é realmente a via régia para assemelhar a Deus e para imitar a Eucaristia na nossa vida. “Vede, irmãos, a humildade de Deus e abri diante d’Ele os vossos corações; humilhai-vos também vós, para que Ele vos exalte. De vós, nada guardeis para vós, para que vos acolha a todos Aquele que Se dá de todo a vós” (São Francisco).

O fruto desta meditação deveria ser uma revisão corajosa da nossa vida (hábitos, tarefas, horários de trabalho, planificação e utilização do tempo) para ver se realmente é um serviço e se, neste serviço, existe amor e humildade. O ponto fundamental é saber se servimos os irmãos ou se nos servimos dos irmãos. Serve-se dos irmãos aquele que não age desinteressadamente. Cristo não procurou agradar a Si mesmo! (Rm 15,3): esta é a regra do serviço.

Para fazer o “discernimento dos espíritos”, ou seja, das intenções que nos movem no serviço, é útil ver quais os serviços eu fazemos de boa vontade, e os que procuramos evitar a todo custo. Ver, ainda, se o nosso coração está pronto a abandonar – se no-lo for pedido – um serviço nobre, que dá lustro, por outro humilde que ninguém apreciará. Os serviços mais seguros são os que fazemos sem que ninguém, nem sequer quem o recebe se dê conta, mas só o Pai que vê no segredo. São Paulo exorta: “Não vos deixeis levar pela mania de grandeza, mas afeiçoai-vos às coisas modestas” (Rm 12,16).

Ao espírito de serviço opõe-se o desejo de domínio, o costume de impor aos outros a própria vontade e o próprio modo de ver e fazer as coisas. Resumindo: o autoritarismo. Muitas vezes, quem é tiranizado por estas disposições não repara sequer nos sofrimento que provoca e admira-se até ao ver que os outros não demonstram que apreciam seu “interesse” e os seus esforços e faz até de vítima.

É muito possível que esse “alguém” sejamos mesmo nós! Se nos vem uma pequena dúvida neste sentido, seria uma boa coisa que interrogássemos sinceramente quem vive ao nosso lado e lhe déssemos a possibilidade de se exprimir sem temor.

Ao espírito de serviço se opõe também o apego exagerado aos próprios hábitos e comodidades. Em suma, o espírito de preguiça. Não pode servir seriamente os outros, quem está sempre atento em contentar-se a si mesmo, quem faz um ídolo do seu repouso, do seu tempo livre, do seu horário.

Todos os carismas estão em função do serviço; mas de modo particular está o carisma de “pastores e mestres” (Ef 4,11), ou seja, o carisma da autoridade. A Igreja é “carismática” para servi e é também “hierárquica” para servir!

3.  O serviço do Espírito
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Se para todos os cristãos, servir significa “já não viver para si mesmos” (2Cor 5,15), para os pastores significa: “não apascentar a si mesmos”: “Ai dos pastores de Israel que apascentam a si mesmos! Os pastores não devem apascentar o rebanho?” (Ez 34,2). Entre os discípulos de Jesus quem é Senhor deve servir. “Não sejais como donos daqueles que vos foram confiados, mas como modelos para o rebanho” (1Pd 5,3).

Para os pastores, e enquanto pastores, é frequentemente sobre este ponto que se decide o problema da conversão.

É preciso imitar o agir de Deus. “Não há nada que caracteriza melhor o agir de Deus do que o contraste entre a simplicidade dos meios e dos modos externos com que opera e a grandiosidade dos efeitos espirituais que obtém” (Tertuliano). O mundo precisa de aparato para agir e impressionar; Deus, não.

A simplicidade exige que não nos coloquemos acima dos outros, mas nem sempre e obstinadamente debaixo deles, para manter, duma maneira ou doutra, as distâncias, mas que aceitemos, nas coisas ordinárias, ser como os outros. “Há pessoas que têm humildade bastante para colocar-se sempre debaixo dos outros, mas não para estar em igualdade com eles” (Manzoni). Por vezes, o melhor serviço não consiste em servir, mas em deixar-se servir, como Jesus que, conforme o momento aceitava os serviços que lhe prestavam – (Lc 7,38; Lc 8,2-3).

Há outra coisa que é preciso dizer sobre o serviço dos pastores: o serviço aos irmãos, por mais importante e santo que seja, não é a coisa principal nem essencial; antes está o serviço a Deus. Jesus, é antes de mais, o “Servo de Javé” e depois também o servo dos homens. A seus próprios pais lembrou isto, dizendo: “Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?” (Lc 2,49). Ele não hesitava em desiludir as multidões, vindas para ouvi-Lo e fazer-se curar, deixando-as de repente, para Se retirar para lugares solitários a rezar (Lc 5,16). Também o serviço evangélico é tentado hoje pelo perigo da secularização. Facilmente se aceita que todo serviço ao homem é serviço a Deus. São Paulo fala de um serviço do Espírito (2Cor 3,8). O espírito de serviço deve exprimir-se, nos pastores, através do serviço do Espírito!

Está escrito que o sacerdote “é constituído para o bem dos homens nas coisas que se referem a Deus” (Hb5,1). Quando surgiu pela primeira vez este problema na Igreja, Pedro resolveu-o dizendo: “Não está certo que deixemos a pregação da Palavra de Deus para servirmos a mesa... Nós poderemos dedicar-nos inteiramente à oração e ao serviço da Palavra” (At 6,2.4). Há pastores que, de fato, voltaram ao serviço das mesas. Ocupam-se de toda a espécie de problemas e desleixam o seu verdadeiro e insubstituível serviço. O serviço da Palavra exige horas de leitura, estudo e oração. Um dos maiores reparos que hoje circulam nas comunidades é este: uma pregação inadequada, vazia. Muitos saem da Missa desgostosos com a homilia, empobrecidos em lugar de enriquecidos. “Os pobre e indigentes procuram água, mas não a encontram” (Is 41,17). As pessoas pedem um pão e é-lhes dado muitas vezes um escorpião, isto é, palavras vazias, gastas, palavras que não sabem a Deus; ou então não lhe é dado nada.

“Vede, o mundo está cheio de sacerdotes, e no entanto raramente se encontra quem trabalhe na vinha do Senhor; comprometemo-nos com o ofício sacerdotal, mas não cumprimos as obras que esse ofício comporta... Mergulhamos em tarefas terrenas, e uma coisa é a que assumimos como o ofício sacerdotal, e outra a que mostramos com os fatos” (São Gregório Magno).

5.  O serviço aos pobres

“Jesus deu a sua vida por nós; por isso, nós também, devemos dar a vida pelos irmãos. Se alguém possui bens deste mundo e, vendo seu irmão em necessidade, lhe fecha o coração, como pode o amor de Deus permanecer nele? Filhinhos não amemos com a língua, mas com obras e de verdade” (1Jo 3,16-18). “O bem-aventurado apóstolo João quis claramente explicar-nos o mistério da Última Ceia” (Sto. Agostinho). Trata-se de algo, que no pensamento de S. João, constitui um aspecto essencial do mistério eucarístico. Jesus Cristo é, segundo o dogma da Igreja, “verdadeiro Deus e verdadeiro homem”. Ora nós reconhecemos e proclamamos Jesus “verdadeiro Deus” mediante a adoração eucarística. Mas como e com que gesto proclamaremos concretamente a nossa fé em “Jesus homem”? Precisamente com o serviço aos pobres. É necessário que a adoração se una a partilha. Aquele que proclamou sobre o pão: “Isto é o meu corpo”, disse estas palavras também a respeito dos pobres. Disse-as quando, falando daquilo que foi feito em favor dos que tinham fome, dos que tinham sede, dos prisioneiros e dos que andavam nus, declarou solenemente: “Foi a mim que o fizeste”; quando identificando completamente com eles, disse: “Eu tinha sede, Eu era estrangeiro, doente, estava preso” (Mt 25,35ss).

No pobre e no faminto não encontramos o mesmo gênero de presença de Cristo que se tem no sinal do pão e do vinho; mas trata-se igualmente de uma presença “real”, verdadeira, não fictícia ou imaginária, porque Jesus identificou-Se com eles. Ele “instituiu” este sinal, como instituiu a Eucaristia. No pobre temos uma presença passiva de Cristo, não ativa. Ele não é “um sinal eficaz da graça”, como o é o sacramento; não produz a graça por si mesmo.

São Leão Magno dizia que, a seguir à Ascensão de Jesus ao Céu, “tudo aquilo que era visível em Nosso Senhor Jesus Cristo passou para os sinais sacramentais”. Este princípio aplica-se também aos pobres e a todos que Jesus chama “os seus irmãos mais pequeninos” (Mt 25,40).

A Encarnação diz-nos que o Verbo Se fez “homem”, mas o mistério pascal diz-nos também “que tipo de homem” o Verbo Se fez: um homem indefeso, condenado e crucificado.

“Queres honrar o corpo de Cristo? Não permitas que seja objeto de desprezo nos seus membros, isto é, nos pobres” (S. João Crisóstomo).

Hoje este dever de honrar a Cristo nos pobres apresenta-se de modo diverso, comparado com o tempo de S. João Crisóstomo. Trata-se de abrir os olhos, antes de mais sobre a situação de escandalosa injustiça existente no mundo, em que menos de vinte por cento da população do mundo, gasta mais de oitenta por cento dos recursos da terra. Tal qual na Idade Média, hoje necessitamos de uma Cruzada: a Cruzada para libertar os templos vivos de Cristo que são os milhões de pessoas que morrem de fome, ou de doença e de privações. Já não, por isso, o sepulcro vazio de Cristo ou os lugares onde Ele passou, mas os seus sepulcros vivos, onde Ele jaz agora e sofre. Esta seria uma “Cruzada” digna desse nome, ou seja, digna de cruz de Cristo!

São Paulo via impedimento em receber a Eucaristia, quando “um passa fome e outro, pelo contrário, fica embriagado”. “De fato, quando vos reunis o que fazeis não é comer a Ceia do Senhor. E, enquanto um passa fome, outro fica embriagado” (1Cor 11,20-21). Dizer que isto “não é comer a Ceia do Senhor” é o mesmo que dizer que esta não é já uma Eucaristia. É uma afirmação gravíssima, mesmo do ponto de vista teológico, à qual não se presta porventura a devida atenção. A ânsia de partilhar alguma coisa com quem tem necessidade, vivam eles perto ou longe, deve fazer parte da nossa piedade e da nossa praxe eucarística. Partilhar não significa, apenas, “dar” (pão, vestes, habitação) mas também “visitar” (um preso, um doente, um idoso sozinho em casa...). Não é só dar dinheiro, mas também dar o próprio tempo. Os pobres e os que sofrem não precisam menos de solidariedade e de amor, do que de pão para comer e de vestes para se cobrir. Jesus disse: “Pobres sempre os tereis convosco, mas a Mim nem sempre Me tereis” (Mt 26,11). Isto é verdadeiro no sentido de que nem sempre podemos comunicar com o corpo eucarístico de Cristo, ao passo que sempre podemos comunicar com Ele através dos pobres. Todas as vezes que estivermos diante de uma pessoa humana que sofre, temos de ouvir dentro de nós, com os ouvidos da fé, a voz de Cristo que nos repete: “Este é o meu corpo”.

“Se compreendestes isto, sereis felizes se o puserdes em prática” (Jo 13,17). Também seremos felizes se não nos contentarmos apenas em saber que a Eucaristia nos impele ao serviço e à partilha, mas se o pusermos em prática. A Eucaristia não é só um mistério a consagrar, a receber, a contemplar e adorar, mas é também um mistério a imitar.

A Eucaristia, nossa santificação. Cantalamessa, Raniero, Paulus, São Paulo, pp. 93-112 - Resumido por Edilma Santos

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