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Continue acompanhando a série de artigos sobre a Eucaristia. Hoje falamos sobre a comunhão no sangue de Cristo.

“Se não beberdes o sangue do Filho do Homem...”
 
Foto do Padre Marcos Oliveira durante a consagração do sangue de Cristo, no Graça e Paz 2019!
Missa no Graça e Paz 2019

A Eucaristia, comunhão no sangue de Cristo


Continuamos a refletir neste capítulo sobre o tema: “AEucaristia faz a Igreja mediante a comunhão”. Falávamos até aqui da comunhão em geral... Agora quero destacar a nossa atenção num aspecto especial dela: a comunhão com o sangue de Cristo.

Um dia uma mulher me entregou um bilhete, no final da Santa Missa: “Tomai, todos, e bebei, este é o cálice do meu sangue”. Por que é que nós não podemos beber também o Sangue de Cristo, como Ele nos pediu? Percebi que o pedido nascia de um desejo real pelo sangue de Cristo, não de um espírito de contradição, e que era acompanhada de uma profunda humildade e amor à Igreja.

Queremos com esta catequese encorajar a prática da comunhão sob as duas espécies.

1. A comunhão sob as duas espécies

Dados históricos e teológicos: Jesus instituiu a Eucaristia no sinal do pão e do vinho (Jo 6,53.55). Ao instituir a Eucaristia disse: “Tomai e comei... Tomai, todos, e bebei”. Não disse: “alguns”, ou “quem quiser”, mas sim “todos”. São Paulo também certifica-nos isso (1Cor 10,16).

Os Padres da Igreja também falavam bastante do sangue nas catequeses eucarísticas. “Se mostrardes ao Maligno a língua embebida no sangue ele não poderá resistir; se lhe mostrares a boca tingida de púrpura, fugirá imediatamente como uma fera amedrontada. Queres conhecer a força deste sangue? Repara donde ele brotou: do alto da cruz, do Lado do Senhor” (S. João Crisóstomo).

Todo o amor e a reverência dos primeiros cristãos para com o sangue de Cristo transparece do modo como iam recebê-lo. “Depois de haveres comungado o corpo de Cristo vai receber o cálice do seu sangue. Não estendas as mãos, mas inclina-te tomando o sangue de Cristo, diz Amém em sinal de adoração e de veneração, e santifica-te tomando o sangue de Cristo” (S. Cirilo de Antioquia)

Hoje Notamos que nos afastamos da fisionomia original... Diversos fatores contribuíram para fazer da eucaristia o sacramento do Corpo de Cristo, tais como, a comunhão dada aos fiéis apenas sob a espécie do pão, o culto eucarístico fora da missa contribuiu involuntariamente para isto, a exposição, a adoração e a bênção eucarística fazem-se apenas com a Hóstia, na festa do Corpus Domini leva-se em procissão só o corpo de Cristo...  Com o tempo, por razões de prudência, a praxe de comungar sob as duas espécies foi sendo abandonada, e a comunhão do cálice reservada apenas ao celebrante.

De fato, “em cada um das espécies está contido Cristo inteiro”. Mas S. Tomás de Aquino logo explica o limite deste princípio: “É verdade – diz ele – que em cada uma das duas espécies está contido o Cristo todo, mas segundo razões diversas. De fato, sob o sinal do pão, o corpo de Cristo está presente ‘em força do sacramento’, isto é, em força das palavras de Cristo, ao passo que o sangue está presente só ‘em força da natural concomitância’, isto é, em força do fato pelo qual, onde está um corpo vivo, lá necessariamente está também o seu sangue.”

O inconveniente surge quando as categorias filosóficas do momento (“real concomitância”) prevalecem sobre as categorias bíblicas, sobre a vontade de Cristo expressa na instituição da Eucaristia.

São Tomás lembra ainda que “Este sacramento é celebrado em memória da Paixão do Senhor; mas a paixão de Cristo é expressa melhor com o sangue do que com o corpo, e por isso seria melhor abster-se de receber o corpo do que de receber o sangue”. “Ora – explica o mesmo santo – nenhuma das duas espécies é supérflua. Em primeiro lugar, porque serve para representar ao vivo a Paixão de Cristo, na qual o sangue foi separado do corpo; em segundo lugar, porque é conforme à índole deste sacramento que sejam oferecidos separadamente aos fiéis o corpo de Cristo como alimento e o sangue como bebida”.

O que determinou o abandono definitivo, teórico e prático, da comunhão no sangue de Cristo, foi como em muitos outros casos, a reação à posição dos Reformadores protestantes. Nos dias atuais, O Concílio Vaticano II reintroduziu a possibilidade da comunhão sob as duas espécies. A comunhão sob as duas espécies não é só permitida, como também encorajada. “A sagrada comunhão com maior plenitude a sua forma de sinal se for feita sob as duas espécies” (Sacrossanctum concilium, n.º 55. E o novo Missal enumera catorze casos em que a mesma é permitida.

Retomar a comunhão sob as duas espécies exige uma catequese adequada que evidencie o significado do sangue de Cristo e a suscitar o desejo dele. “Quero o pão de Deus que é a carne de Jesus Cristo, e como bebida quero o seu sangue que é amor incorruptível!” Sto Inácio de Antioquia   

2. O sangue na Bíblia: figura, acontecimento e sacramento

(Nota do Pe. Marcos: figura aqui é um acontecimento do passado que aponta para uma realidade futura. Os cristãos, e o próprio Cristo Jesus, viam nos acontecimentos passados como que uma preparação para acontecimentos futuros, dentro de uma pedagogia de revelação que Deus Pai utilizou para ir comunicando a sua verdade salvífica aos poucos, visto que os homens precisavam ser preparados para poderem ir assimilando tudo aos poucos, etc).

Tema do sangue atravessa toda a Bíblia e alcança a Eucaristia. A efusão do sangue de Cristo aparece-nos em primeiro lugar, profeticamente prefigurada, depois historicamente realizada e por fim, sacramentalmente renovada na Eucaristia.

Grandes figuras do sangue de Cisto no Antigo Testamento: sangue do cordeiro pascal (Ex 12,7.13), o sangue da aliança com o qual moisés aspergiu o povo aspersão -  (Ex 24,8), o sangue da purificação (Lv 16,1ss). O próprio Jesus cita essas três figuras na instituição, utilizando expressões como “memorial”, “sangue da nova aliança”, “para remissão dos pecados”. 

A catequese apostólica segue essa linha (1Pd 1,18-19; Hb 9,12) e os Padres da Igreja também. Comentando Ex 12,13 “Ao ver o sangue, Eu passarei adiante e vos protegerei”, um deles escreve: “Tu, ó Jesus, protegeste-nos verdadeiramente da grande ruína. Estendeste paternalmente os braços e escondeste-nos à sombra das tuas asas, derramando sobre a terra o teu Sangue divino em libação cruenta por amor dos homens” (antiga homilia pascal).

Todo esse conjunto de figuras chega até nós, no sacramento da Eucaristia. Mas com uma novidade importante, que constitui precisamente a característica do sacramento. Em lugar da realidade, o sangue, temos o sinal, o vinho.O vinho tem afinidade com o sangue. “Ele permite evitar o horror natural provocado pelo sangue, embora conservando a eficácia do preço da Redenção” (Sto. Ambrósio). 

A transposição sangue-vinho também dá sentido a palavra de Jesus: “o meu sangue é verdadeira bebida”, evoca o “vinho novo”, a “embriaguez espiritual” (Sl 23,5; 104,15), fazendo assim da Eucaristia uma antecipação do banquete escatológico do reino (Mc 14,25). “O sangue do Senhor e o cálice da salvação apagam a lembrança do homem velho, fazem esquecer os costumes de outrora e afastam a tristeza acumulada no coração devido aos pecados cometidos, com a alegria do perdão divino” (S. Cipriano)
Graças à Eucaristia nos tornamos “consanguineos de Cristo” (São Cirilo de Jerusalém), e num sentido mais remoto, também de Maria.

O que é que há no sangue, que justifique um lugar tão relevante na religiosidade bíblica? O sangue não interessa na Bíblia na sua crua realidade física, mas no sentido de que significava para o homem antigo a sede da vida, ou seja, daquilo que há de mais sagrado e precioso no mundo.  O derramamento do sangue (em Jesus é o dele mesmo, não de um animal ou de outra pessoa) é o sinal de um amor que não tem igual (Jo 15,13). “Não foi a morte do Filho que agradou ao Pai, mas sim a sua vontade de morrer espontaneamente por nós” (São Bernardo). 

Devemos no entanto não reduzir o sangue de Cristo a um puro símbolo, embora de uma realidade tão grande como é o amor. O sangue de Cristo não representa apenas uma realidade espiritual – o seu amor, a sua obediência – ; ele representa um acontecimento preciso, acontecido no tempo e no espaço: “Cristo entrou de uma vez por todas no santuário, e não com o sangue de carneiros e bezerros, mas com o seu próprio sangue, depois de conseguir para nós uma libertação definitiva” (Hb 9,12). É daqui que lhe vem a sua força única e transcendente. É sinal, mas também memorial! O sangue de Cristo atesta que tudo foi cumprido.


3. “Todos nós bebemos de um só Espírito”
São Paulo diz que Deus predestinou Jesus para servir de instrumento de expiação “mediante o seu próprio sangue” (Rm 3,25). 

Ao levantar o cálice depois da consagração, sinto a necessidade de proclamar mentalmente o poder do sangue de Cristo sobre as situações de luta ou de pecado particularmente difíceis... Nada há no mundo mais eficaz para opor à barreira ameaçadora das trevas e do mal! Se o anjo exterminador, dizia São João Crisóstomo, vendo somente a figura do sangue nas portas dos hebreus, receou e não entrou para ferir (Ex 12,23), quanto mais o demônio vendo a realidade não fugirá para a longe?”

A comunhão no corpo de Cristo é já capaz de nos fazer entrar na posse de toda a graça, se for acompanhada de fé viva no sangue de Cristo. No entanto, a comunhão no cálice é o meio mais a adequado, estabelecido pelo próprio Cristo, para participar nela, porque “significando-a, causa-a”, como se diz de todos os sinais sacramentais.

Os pecados depositam-se no fundo da nossa consciência como corpos mortos. Que alívio saber que há um jeito para nos libertarmos desses pesos mortos que nos oprimem, e que ele está sempre à nossa disposição na eucaristia. “O sangue de Cristo... purifica a nossa consciência das obras mortas”(Hb 9,14). “Se todas as vezes que o sangue é derramado, é derramado para o perdão dos pecados, devo recebê-lo sempre, para que me perdoe sempre os pecados. Eu que peco sempre, devo sempre dispor do remédio”.
Mas o sangue de Cristo não só tira o pecado, também dá-nos o Espírito Santo. 

São João notou uma relação estreita entre o Espírito que Jesus “expira” na cruz, e a água e o sangue que logo depois brotam do seu lado (1Jo 5,7), tanto que escreve: “São três que dão testemunho: o Espírito, a água e o sangue”. Não há caminho mais seguro para receber o Espírito Santo do que comungar, com fé, no sangue de Cristo.

Que fazer para voltar a dar ao sangue de Cristo o lugar que lhe cabe na teologia e na piedade eucarística? 

Propostas:

- Comunhão sob as duas espécies;
- Cálice transparente;
- Adoração eucarística diante do Corpo e do Sangue de Cristo, ou só perante o Sangue;
- Procissão do Corpus Domini não só com o Corpo, mas também com o Sangue.

Obs: todas essas práticas requerem autorizações próprias!

A Eucaristia, nossa santificação. Cantalamessa, Raniero, Paulus, São Paulo, pp. 55-73 Resumido por Pe. Marcos Oliveira 

Série: A Eucaristia, Nossa Santificação

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