Conheça mais sobre a Eucaristia, fonte de nossa santificação. E veja como a comunhão constrói a Igreja de Jesus.

Filas de pessoas recebendo a comunhão, dentre elas o cantor Cosme no Kairós 2018.
“Quem Me come viverá por Mim”

A Eucaristia faz a Igreja mediante a comunhão.


Um filósofo ateu disse: “O homem é aquilo que come”. Pretendia dizer que no homem não existe diferença qualitativa entre matéria e espírito, que tudo nele se reduz à componente material.  Mais uma vez, aconteceu que um ateu deu, sem o saber, a melhor formulação aplicada a um mistério cristão. Graças à Eucaristia, o cristão é verdadeiramente aquilo que come. “A nossa participação no corpo e sangue de Cristo nada mais pretende senão tornar-nos naquilo que comemos” (São Leão Magno).

“Como o Pai, que vive, Me enviou e Eu vivo pelo Pai, assim aquele que Me come viverá por mim” (Jo 6,57). Isto significa que quem come o corpo de Cristo vive d’Ele, ou seja, em força da vida que provém d’Ele, e vive para Ele, para a sua glória, para o seu amor, para o seu Reino.  

Padres da Igreja: o princípio vital mais forte assimila o que é mais fraco. Jesus diz ao que O recebe: “Não será tu que Me assimilarás, Eu é que te assimilarei” (Sto. Agostinho).  Enquanto o alimento material se torna aquele que o come, aqui acontece o contrário: o Pão da Vida é ele mesmo vivo e por isso vivem aqueles que o recebem. É o pão da vida que faz movimentar quem dele se alimenta. “Que me come viverá por Mim”. 

Dizer que Jesus Eucarístico nos assimila a si, quer dizer, concretamente, que ele torna nossos sentimentos, desejos e pensamentos semelhantes aos seus (Fl 2,5).  Como o coração no corpo, Jesus é o coração do seu Corpo Místico. Ao coração chega de todas as partes o sangue venoso, empobrecido de elementos vitais e cheio de tóxicos. Nos pulmões este sangue é como que queimado com oxigênio e assim regenerado, enriquecido e restituído pelo coração a todos os organismos. Todo sangue venoso do mundo flui para a Missa. Na comunhão, o indivíduo lança todos os pecados e Jesus dá sangue puro, sangue novo, “medicina de imortalidade” (Sto. Inácio de Antioquia). Por isso se diz na Escritura: “O sangue de Cristo... purificará das obras da morte a nossa consciência” (Hb 9,14;); “purifica-os de todo o pecado” (1Jo 1,7).  A Eucaristia é o coração da Igreja e num sentido muito mais real do que costumamos pensar!


1. Comunhão com o corpo e o sangue de Cristo (1 Cor 10, 16)



Corpo e sangue, biblicamente falando, quer dizer toda a vida de Cristo, sua vida e sua morte. Corpo é a vida vivida no corpo. Na Eucaristia,corpo significa Cristo na sua condição de servo, pobreza, cruz; que trabalhou, sofreu, rezou no meio de nós. Sangue também é uma realidade concreta, melhor, um acontecimento concreto: indica a morte, a morte violenta, a morte sacrifical expiatória. (Ex 24,8)

Ao comungarmos, portanto, o corpo e o sangue de Cristo, revivemos e partilhamos toda a sua experiência de vida. Unimos o hoje da nossa vida, os momentos felizes ou tristes que também passamos, aos momentos que Jesus viveu. Tudo isso não por uma ficção mental, mas porque Jesus existe e está vivo na Eucaristia.


2. Quem se une ao Senhor forma um só Espírito com Ele (1Cor 6,17).



A força da comunhão eucarística reside precisamente nisto; nela nós nos tornamos um só espírito com Jesus e este único espírito é o Espírito Santo! No nascimento é o Espírito que dá Jesus ao mundo. Na morte, é Jesus quem dá ao mundo o Espírito Santo. Na consagração, o Espírito dá-nos Jesus. Na comunhão, Cristo dá-nos o Espírito.

O Espírito Santo é aquele que realiza a nossa intimidade com Deus (São Basílio). O Espírito Santo é a “nossa própria comunhão com Cristo” (Sto. Irineu). 

Na comunhão Jesus dá agora o Espírito Santo. Deste modo Jesus torna-nos participantes da sua unção espiritual. Ao redor da mesa eucarística realiza-se a “embriaguez sóbria do Espírito”. 

O efeito da embriaguez é sempre fazer o homem sair de si mesmo. Na embriaguez material (vinho, droga) o homem sai de si para abaixo da razão, para o nível animal... Na embriaguez espiritual sai para viver acima da própria razão, para o horizonte de Deus. Cada comunhão deveria terminar num êxtase (não tanto no sentido dos fenômenos místicos extraordinários, mas no sentido paulino de “já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”).

Eucaristia é o sacramento do amor (Sto. Tomás de Aquino). O amor é a única realidade, graças à qual dois seres vivos distintos podem unir-se para formar uma só coisa. O Espírito é chamado a própria comunhão com Cristo por que Ele é o próprio Amor de Deus. Eu comungo plena e definitivamente com Cristo que comungou comigo, somente quando consigo dizer-lhe, com simplicidade e sinceridade de coração, como Pedro: “Senhor, Tu sabes que eu te amo!” (Jo 21, 16).


3. “Eu neles e Tu em Mim”: a comunhão com o Pai



Mediante Jesus e o seu Espírito, na comunhão eucarística nós alcançamos também o Pai. Os Três são inseparáveis. Devido à pericorese (É o inter-relacionamento eterno que existe entre os três divinos: Pai, Filho e Espírito Santo. Cada pessoa vive da outra, com a outra, pela outra e para a outra. É uma comunidade unida, de amor, de ação) das Pessoas divinas, em cada uma estão presentes também as outras duas. A Trindade toda está na Eucaristia! 

Entramos, portanto, numa comunhão misteriosa, mas profunda, com a Trindade inteira: com o Pai, mediante Jesus Cristo, no Espírito Santo.


4. Deus colocou o seu corpo nas nossas mãos



Que fazemos nós com o Corpo de Cristo? Muitas vezes estamos até distraídos, e isto é usar de violência para com Ele.

“A Humanidade estremeça, o Universo inteiro trema e o Céu exulte quando, sobre o altar, nas mãos do sacerdote, está o Cristo Filho de Deus vivo. Vede, irmãos, a humildade de Deus e abri-lhe os vossos corações; humilhai-vos também vós, para que Ele vos exalte” (S. Francisco de Assis).

Creio que se trata de uma graça salutar para um cristão passar por um período de tempo em que tem medo de se aproximar da comunhão... A pregação da Igreja não deveria ter receio de usar por vezes a linguagem de Hb 12,18-24!!! Conhecemos o aviso que ressoava no cristianismo primitivo, no momento da comunhão: “Quem é santo aproxime-se, quem não o é arrependa-se!” (Didaqué 10).

São João Crisóstomo, tendo de lidar com uma população inclinada, também ela, a levar as coisas com leviandade, não fala nunca da comunhão eucarística, que não utilize o adjetivo ‘terrível’: “Os mistérios da Igreja são terríveis; e terrível é o altar!” (S. João Crisóstomo); “Terrível e inefável é a comunhão dos santos mistérios” (S. João Crisóstomo).


5. A comunhão com o corpo de Cristo que é a Igreja



Na Eucaristia realiza-se também uma comunhão horizontal, ou seja, com os irmãos.  1Cor 10,16-17: comunhão com corpo de Cristo, mas fala também de corpo místico, que é a Igreja.

Os primeiros cristãos sentiam-se unidos na fração do pão (At 2,42). Não se pode ter um pão se os grãos de trigo não são moídos... Para sermos o corpo místico de Cristo, também temos que ser moídos. E nada melhor para nos moer do que a caridade fraterna, especialmente pra quem vive em comunidade: suportarem-se uns aos outros apesar das diferenças de caracteres, de pontos de vista , etc. 

É nos dito na Missa: “O corpo de Cristo”. E nós dizemos: Amém! Dizemos amém ao corpo santo de Jesus nascido da Virgem, mas também ao corpo místico que é a Igreja, que são concretamente, os irmãos que estão a nossa volta, na vida ou na mesa eucarística. Não podemos separar os dois corpos, e aceitar um e rejeitar o outro.

Não nos custará muito dizer amém aos irmãos, talvez à maioria, mas sempre haverá um que nos faz sofrer, por culpa dele ou nossa. Dizer amém neste caso é mais difícil, mas esconde uma graça especial. Quando queremos fazer uma comunhão mais íntima com Jesus, ou precisamos de um perdão ou uma graça especial, este é o melhor modo de o conseguir: acolher Jesus, na comunhão, juntamente com aquele irmão. Dizer mesmo: “Jesus, hoje recebo-vos juntamente com o fulano... hospedo-o juntamente contigo no meu coração, fico feliz se Vós o trazeis convosco.” Este pequeno gesto agrada muito a Jesus, porque Ele sabe que, para o fazermos, devemos morrer um pouco.

A Eucaristia, nossa santificação. Cantalamessa, Raniero. Paulus, São Paulo, 2005, cap. III, pp.37-54 - Resumido por Pe. Marcos Oliveira 


Postar um comentário:

0 comments: