Para a cultura pop, 2019 é uma data cabalística. Basta saber que é o ano em que transcorre o filme "Blade Runner - O Caçador de Androides", de 1982, referência absoluta não apenas para a ficção científica em si, mas para a própria forma como passamos a conceber o imaginário do futuro. Na película dirigida por Ridley Scott, a tecnologia futurista convive com problemas crônicos do passado, como a poluição.
Vida real
No 2019 da "vida real", a situação é semelhante: estamos imersos em uma cultura plenamente digital, mas tendo de lidar com organizações que remontam ao século XIX. As milícias - que ganharam destaque nacional após a denúncia dos acusados da morte da vereadora Marielle Franco - devem seu nome às forças auxiliares do Exército brasileiro na época do Império. Cabiam a tais grupos diversas tarefas de polícia como a manutenção da ordem pública e a captura de escravos. Nos dias atuais, as milícias desfrutam do poder paraestatal de vida e morte sobre comunidades inteiras do Rio de Janeiro.
Em seu discurso de posse, na semana passada, o presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, defendeu a investigação de uma nova versão desse modelo de organização: as "milícias digitais". "Nós temos no Brasil hoje uma milícia organizada nas redes sociais, e nós temos que compreender a quem essa milícia serve. Ela obviamente é articulada, tem investimento, utiliza robôs, e ela persegue opiniões que ela não concorda. Isso não é bom para o debate público", afirmou.
É preciso que entendamos que não há como dissociar os efeitos do que é dito e feito nas redes sociais do que supostamente seria a vida "offline". Os linchamentos virtuais, os ataques pessoais nos fóruns de discussão e o vazamento criminoso de dados sigilosos geram consequências danosas que vão do silenciamento, passando por traumas psíquicos, até chegar mesmo à morte.
Dotados de robôs que se multiplicam como gafanhotos, organizações criminosas podem veicular mentiras e desinformações de forma ininterrupta. Os alvos mais recentes de ações dessa natureza são os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A possibilidade de que isso esteja ocorrendo com os magistrados da mais alta corte do País acende o alerta vermelho de que todos os cidadãos estejam em risco potencial.
Manter uma estrutura criminosa desse porte exige dinheiro, recursos tecnológicos e pessoal especializado. Quem se beneficia com esse tipo de prática? Quem financia tais grupos? São questões que exigem ser respondidas sob a condição de que a própria democracia seja colocada em xeque. Em uma sociedade na qual os cidadãos temem se expressar, como garantir a presença do contraditório no debate público? Como assegurar o direito de se opor aos governantes no campo das ideias sem cair nas garras de um estado policial?
Privacidade
A discussão sobre as milícias digitais recai também na necessidade imperiosa de protegermos nossa privacidade e nossos dados pessoais. Estamos cada vez mais reféns de algoritmos e de sofisticados mecanismos de vigilância. É muita informação e poder concentrados nas mãos de um pequeno grupo de pessoas. Os conflitos entre os países já não se dão mais sob a forma de movimentação de tropas e blindados. Eles ocorrem por meio de ataques cibernéticos, disseminação de vírus de computador e batalhas virtuais pela disputa da opinião pública. Parece ficção científica, mas em 2019 esse é o novo normal.
Como se vê, trata-se de um assunto que já faz parte do nosso dia a dia, mas que ainda damos pouca atenção. Cuidados com senha, dados, imagens e mensagens trocadas precisam ser uma constante. Nessa nova realidade, todos teremos de contar com algumas habilidades hacker sob pena de nos tornarmos analfabetos digitais 3.0 e vítimas fáceis de predadores de todas as espécies.
CriptoBaião
Com esse intuito, Fortaleza sedia no próximo sábado, dia 30, no Centro Cultural Belchior e na Casa de Cultura Digital Iracema, a primeira criptofesta do Ceará, a CriptoBaião. O evento, realizado em todo o mundo, aborda temas como segurança digital, privacidade, software livre, democracia, criptografia, direitos humanos e direitos digitais. A entrada é gratuita, mas as capacitações têm vagas limitadas. A coluna estará presente na mesa "Democracia, exceção e autoritarismo no capitalismo de vigilância". Em uma sociedade onde o conhecimento seja talvez o bem mais precioso, estar bem informado não deixa de ser uma forma de autoproteção.
Fonte: O povo
O POVO

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